De Thor’s, Wanderson’s, Águias e Ratinhos.

Por Venâncio Guerrero

Festas. Baladas. Tranqüilidade. Estou bem. Estou na boa. O carro voa. Que carro é aquele? Prateado e forte. Mais forte que qualquer ser vivente. Uma Grande Águia. Uma Mercedes-Benz. Uma MacLaren. Sim. Aquele bico de águia se insinua na rodovia, ruge o poder do representante de um trovão. Era o poder do carro? Não! O Homem era o poderoso. Ele domina o carro. Suas pernas e seus músculos fazem parte do Carro. Ele que era um famoso. Ele que era um Rico. Um dono do Poder. Rico, como? Sim. Ele era rico. Filho de rico, por isto rico. Nasceu rico. Nasceu para voar. Sim. Sim. Ele quer ser uma águia, tem o poder para isto? Sim, ele tem dinheiro. Muito dinheiro.

O pai dele tem dinheiro, que herdou do avô o mapa da mina e agora quer ser o mais poderoso em números. Ele venceu batalhas, sim, com quanto de tempo de trabalho? Ah (…) não pergunte isto, ele nasceu afortunado. Nós nascemos miseráveis. Enquanto, trabalhamos 12 horas por dia, nunca vamos ser Águia. Ele foi abençoado pelos Deuses, é representante do trovão. Ele fez o Filho em homenagem ao Deus do Trovão. Uma oferenda ao Poder. Quero o melhor!

O Filho agora era Águia. Sim, ele corria de MacLaren. Ele era uma águia na pista. Deve correr. Tem o direito. Todo o povo brasileiro lhe deu este direito. Pois, sim, senão? Senão, o povo é condenado pelos Deuses. Tirar o dinheiro dele? Não. Seremos condenados. Devemos apenas assistir e nos alegrar de ter um brasileiro na revista bonita. Para nós? Para nós nada. Nós que fazemos tudo, para nós nada.

Sim, vamos nos divertir olhando ele correr na pista. Não. Calma. Calma. Espera um pouco. Existe algo que me impede de correr, de ultrapassar, de usar a totalidade do mundo para realizar minha Potência. Calma, ali no acostamento tem um ponto, algo pequeno, insignificante. Não. Não. O filho do Deus não vê, óbvio, quem vê é a máquina. Mas, ela não diz, ela corre. Calma. Calma.

Quem era a fagulha? Precisamos falar da fagulha? Sim, precisamos. Antes que a Águia puna o Insignificante por estar ali no acostamento, é necessário falar dela. Uma bicicleta. Estou cansado. Hoje, quero ver futebol. Cansado. “Crein”. “Crein”. Sim.  Como era a bicicleta? Rígidos aros. Rígidos pneus. Barulho da catraca. A corrente desliza. Os pneus meio descascados. Ela toda pequena. Toda humilde. Está longe de ser uma águia. Está mais para um pequeno rato, passinhos curtos e pequenos.

O Homem por detrás dela é simples. Um moço negro, magro e trabalhador. Sem a Força do representante do Trovão, sem os milhões no bolso. Com fôlego curto tenta dar vida ao seu ratinho. Ele sem o dinheiro necessário para comprar qualquer carro. Imagina uma MacLaren! Não. Não podia. Estava ali, fôlego curto. Sentindo o vento da escuridão. Vento doce. Imaginando-se impossibilidades, sonhando, pois até às fagulhas é permitido sonhar. Na verdade, aos ricos não é permitido sonhar. Pois sim, eles não sonham, os ricos não têm direito de sonhar, pois impõe pesadelo aos outros, daqui sacam sua vida boa. Os ricos sonham como gatos, em preto em branco.

A Mãe do nosso moço de bicicleta não é rica. Mulher trabalhadora, o pai também. Se dos ricos falamos do Pai Varão, dos pobres falamos da Mãe. É melhor falar delas, pois falar de Pai é muito chato. Falar da Mãe é bem mais interessante para aliviar a tensão. Uma Mãe que nunca teve o mapa da mina, que não tem a pretensão de gravar em revistas de milionários. Mas, é uma Mãe que tem direito de chorar pelo filho, que tem o direito de pedir Justiça. Esqueçamos da mãe e falamos do Moço.

Este moço montado em seu ratinho –, bicho que reencarnou das mulas e de burricos de sonhadores –, vinha lá, no meio da lua, tentando viver uma vida difícil. Sim, ele ainda tentava. Mesmo com as dificuldades do mundo. Mesmo com as dificuldades em ser brasileiro, destes que riem do próprio mal, de que lutam cada dia para tentar encontrar um sentido em suas vidas. Um sentido em meio aos ônibus lotado, um sentido em meio às jornadas extras. Um sentido no economizar. Um sentido nas cobranças diárias. Um sentido ao buscar comprar uma casa financiada e não ter dinheiro para entrada, ou ter de alugar e ainda não conseguir fiador. Um sentido ao ver a seleção perder para Holanda. Um sentido apenas. Diferente dos sentidos das baladas de R$ 10.000,00 reais, dos cartões de crédito sem limites, das famosas, do mundo absurdo e plástico, e das mentiras dos números inflacionados de fortunas sem sentido.

Sim, ali estava a águia a ver a fagulha que vai se tornando mais evidente, mais nítida. Pois, está bem rápida! Sim. A Águia corria a mais de 100 km/h. Para que ter uma Águia e não correr tanto? Sim. Tentou ultrapassar o caminhão pelo acostamento. Que ciclista caminharia no meio da pista? Bom, ali estava. O luar iluminou o Ratinho, os olhos da Águia se avivaram pela presa. O bote foi rápido. A bicicleta se estatela na frente do MacLaren, o Ratinho se destrói na Boca da Águia. E dos Homens por trás das máquinas? Que podemos falar? Do moço pobre não quero falar, este dá até tristeza de lembrar. Do moço rico, deste apenas falo que convenceu a todo mundo sobre a sua Justiça. Convenceu que o moço pobre fora o culpado de entrar na frente dele, e deveria ser punido com a morte. O Pai? o Pai vai contratar um ex-Guardião da Justiça para fazer a Injustiça com os pobres. E, as testemunhas, os policiais? Que farão eles? Ah, esta covardia não cabe neste texto. A Mãe? Ah! Às Mães cabe o choro e o sentimento de verdadeira injustiça.

Enfim, para concluir, falta falar dos Deuses. Principalmente, do Deus do trovão, que tem responsabilidade sobre àquele que leva seu nome. Não, dos Deuses já estamos cansados. Queremos falar dos humanos, não dos Senhores do Castelo, não daqueles que gravam em shows, em páginas de revista de milionários, pois estes já perderam sua humanidade. Queremos falar dos súditos, dos pobres, dos pequenos, dos ratinhos. Não podemos. Não podemos, infelizmente. Estes ainda não querem contar sua própria história. Ainda acreditam nos Deuses do Dinheiro e do Trovão. Bom, esperamos. Pois, estes ainda falarão de si mesmos. Oxalá um dia, os brasileiros reconheçam no fundo de sua brasilidade, seus próprios Wandersons.  Não esperem justiças dos Senhores do Castelo, que a façam eles mesmos, como diz o ditado: o trovão não vem de nenhum Thor, vem é da terra, e vem é dos “debaixo”.

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