Casa Negra

por Pedro Carrano (publicado no Brasil de Fato)

O Filho Nativo se insere entre as obras de autores estadunidenses contestadores. É um marco na análise da luta de classes e sua relação com a opressão racial

“Era assim que ele vivia; passava seus dias tentando derrotar ou gratificar poderosos impulsos em um mundo que temia”, Richard Whrigt

A literatura tem grande capacidade de penetração na essência dos conflitos sociais, mesmo que o ponto de partida de uma obra seja a dimensão psicológica dos sujeitos, mas que está permeada por uma dada situação histórica e cultural.

Chega quase a ser um lugar-comum falar da importância dos romances do russo Dostoievski e do tcheco Franz Kafka, pelas janelas que nos abrem para a compreensão de conflitos de uma dada época, mas que não se limitam apenas a um registro jornalístico e factual, pelo seu grau de penetração e mapeamento das contradições na relação entre o personagem, o mundo que o cerca e os seus sentimentos mais íntimos.

Nesse sentido, poucos textos são capazes de impactar tanto como o romance Filho Nativo (The Native Son, Editora Best Seller, 1987), escrito pelo romancista negro Richard Wright, que retrata o julgamento de um jovem de 20 anos, chamado Bigger Thomas, no estado de Ilnnois (EUA), no período de depressão da década de 1930. O romance foi transformado em filme em 1986 nos EUA.

O livro é um impacto para qualquer consciência, sobretudo para aquelas que se sentem confortáveis no domínio de determinada análise do conflito racial. Mesmo a análise da luta de classes, ao examinar a questão da negritude, demanda enxergar meandros e raízes profundas que enriquecem esse eixo de análise. Na obra de Wright fica claro que os próprios comunistas, muito ativos no período das lutas nos EUA na primeira metade do século, não conseguiam uma inserção e unidade com a causa dos negros – ainda que também sofressem a ira e a perseguição brutal por parte da elite estadunidense.

Nativo do sul dos EUA, onde a segregação contra os negros é mais evidente e o final da escravidão encontrou resistência, a perspectiva de vida do personagem Bigger Thomas revela que o racismo não se supera apenas com uma política de circunstância. Na realidade, ele vive em Chicago, maior cidade do estado de Illinois, onde a legislação não é tão agressiva contra os negros e, em tese, há mais oportunidades para eles. Vivendo entre uma família de quatro pessoas, espremidos em um quarto, a primeira cena do livro já coloca o leitor em um estado de tensão que se mantém nas 400 páginas restantes do livro.

Enquanto busca matar um rato dentro do quarto, o perfil de Bigger vai sendo traçado: a família é beneficiada por um programa do governo, o que é insuficiente, uma vez que no bairro onde vivem, no “Cinturão Negro” da cidade, segregado da sociedade branca, o preço do aluguel é mais caro para as famílias negras, instaladas em casarões abandonados por essas mesmas elites. Nenhuma imobiliária alugaria seus imóveis para um negro noutro local da cidade, avisa o escritor. O romance traça elementos críticos que caracterizam a visão dos brancos – implicitamente separatista – de que os negros preferem essa condição de segregação e “ficam mais felizes quando estão juntos”. Thomas Bigger está inscrito em um programa de empregos, ao mesmo tempo em que planeja, junto com um grupo de amigos, assaltar uma venda. Dessa vez, o alvo é um comerciante branco, o que causa tensão e medo em todo o grupo. É a primeira vez que não assaltariam um negro, e passam a sentir o peso da repressão, jurídica, social, e, antes da ação, a pressão psicológica que apenas se anuncia sobre eles.

A angústia é a marca do texto de Wright, abrindo pontes para a comparação com Dostoievski. Enquanto o plano do assalto não acontece, justamente pelo imaginário que ronda a cabeça dos jovens negros, Bigger Thomas recebe a indicação de um emprego na casa do proprietário de uma imobiliária, Dalton, considerado um empresário e pai de família exemplar nos EUA, que contribui para programas beneficientes e de apoio aos negros. É sintomático o momento, já no final do livro, quando o advogado pergunta à Bigger se a criação de espaços culturais para negros, com investimento das elites brancas, não os ajudou. A própria senhora Dalton afirma que havia doado mesas de pingue-pongue para a “associação cultural” dos negros.

“ – Você achou que aquele clube poderia manter você longe dos problemas? Bigger abaixou a cabeça.

– Me manter longe dos problemas? – repetiu as palavras de Max.

– Não; era lá que a gente planejava a maioria dos golpes e dos roubos”.

No mesmo dia, Bigger consegue o emprego e deve ser o motorista da filha de Dalton, uma garota que namora um militante do Partido Comunista estadunidense. A tentativa de ambos entrarem no universo de Bigger e forçarem um rompimento – bem intencionado, diga-se de passagem – com as convenções sociais, ao levá-lo para jantar com eles, revela o abismo e a complexidade colocada diante de uma opressão histórica sofrida pelo seu povo, com o peso de quatro séculos. Bigger passa a odiá-los e só no desenvolvimento do livro começa a entender alguns aspectos da linguagem militante de Jan Erlone, no momento do julgamento do tribunal, quando apenas os comunistas se colocam para defendê-lo. Ainda assim, Jan sempre foi um estranho para Bigger. Mesmo ombro a ombro com a causa racial, os próprios comunistas, ao longo do romance de Wright, não conseguem penetrar na dimensão histórica e cultural da questão racial.

Bigger vem a matar por acidente a filha dos Dalton, ao sufocá-la com o travesseiro, depois de levá-la bêbada até o quarto dela, de madrugada. Sem dúvida, essa é uma das cenas mais tensas do romance, quando ele sente todo o peso e condenação social quando entra no quarto de uma família branca. Após isso, Bigger consegue manobrar de maneira que as primeiras acusações recaiam sobre o Partido Comunista. Nesse momento, a narrativa confirma o diálogo com a obra de Dostoievski, em especial com o romance clássico Crime e Castigo, pela dimensão psicológica que alcança, ao retratar o personagem e todas as sensações que ele tem ao assassinar e sentir o peso da repressão social sobre ele. “A realidade do quarto caiu sobre ele; a enorme cidade dos brancos que se espalhava lá fora assumiu seu lugar”. No caso de Bigger, a condenação já existia desde antes do assassinato. Sua condição explorado, de certo modo, o torna indiferente ao assassinato.

A morte e a fuga de Bigger desencadeiam todas as energias contidas numa América cindida pela luta de classes que está entrelaçada com o preconceito racial e, como “guerra civil oculta”, até então na sociedade estadunidense: comunistas e negros são perseguidos, todas as casas do bairro negro são reviradas e a população se revolta; jornais e políticos reavivam o discurso do racismo, em uma verdadeira caça a Bigger. Mas Bigger é só um pretexto, e sem saber, ele se torna o símbolo individual da caça contra todo um povo, símbolo do imaginário de um conflito que nunca teve as contras acertadas, apenas postergadas, e que, nos Estados Unidos volta a ser retomada nas lutas de Malcom X, Martin Luther King, do Partido dos Panteras Negras, entre outros movimentos sociais.

No embate entre o promotor de acusação e o advogado de defesa (membro do Partido Comunista), o romance promove um confronto entre o discurso conservador e histórico, presente na América, e um forte manifesto de como os negros foram vítimas da segregação promovida pela propriedade privada. Lutam pela mesma liberdade que a revolução burguesa roubou deles.

“Os negros não são simplesmente doze milhões de pessoas; na realidade eles se constituem em uma nação separada, atrofiada, despojada, e mantida cativa dentro desta nossa nação, destituída de direitos políticos, sociais, econômicos e de propriedade.”

Filho Nativo e a narrativa de Richard Wrigth se somam à tradição de romances estadunidenses que colocam o ser humano na contradição entre o desejo de liberdade, com o qual a burguesia ascende ao poder, e as limitações que a sociedade burguesa mesma criou. O que remete aos cantos iniciais do poeta Walt Whitmann, principal poeta da revolução burguesa nos EUA, como definiu o poeta e ensaísta Paulo Leminski. Na narrativa em prosa, o clássico Moby Dick, de Hermann Melville, além de ser um dos livros obrigatórios para qualquer pessoa, aprofunda essa cisão entre a promessa da livre-iniciativa do capitalismo comercial logo abafados pelo Capital em sua fase monopolista.

A hegemonia estadunidense no século vinte também gerou diversos grandes escritores contestadores. Na lista de autores declaradamente “vermelhos” temos o aventureiro Jack London, o jornalista John Reed (repórter que vivenciou e descreveu a revolução Russa de 1917 e esteve com as tropas de ‘Pancho’ Villa no México), Jonh Steinbeck, autor de Vinhas da Ira, livro obrigatório para qualquer pessoa de esquerda, além da geração que aliou jornalismo, literatura e política, o New Journalism, com destaque para Norman Mailer, que traçou um épico chamado A Luta, quando acompanha passo a passo o lutador Muhammad Ali nos seus preparativos para o duelo contra o jovem George Foreman. A luta ocorreu na África. Negro e rebelde, Ali declarava após a vitória que não voltaria à Casa Branca, mas à “Casa Negra”; ele que recusou-se a servir no Vietnam, alegando que nenhum vietcongue nunca o havia chamado de nigger.

A tradição de narrativa dos EUA não se limita apenas a escritores com posição política declarada. Também Ernest Hemingway, autor de O Velho e o Mar, Jack Kerouac, JD Salinger, Truman Capote, reforçam a tese de que há grandes obras de literatura a serem lidas no país do Tio Sam, inclusive para entender as contradições ocultadas por baixo do consenso do “sonho americano” – um sonho, como denunciam esses escritores, sempre irrealizável no marco da sociedade burguesa.

Pedro Carrano é jornalista.

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