O Pensamento é que existe, eu não existo.

Por Venâncio Guerrero

Sim. Consegui. Foi demais. Genial. Todos vão ver. Sim, todos. Não, não vão ver. Não podem. Todos estão mortos. Não importa. Se estivessem vivos, ficariam abismados. Não. Não ficariam. São torpes. Se estivessem vivos, estariam estragando tudo. Sempre fazem isto. Como eu os odiei. Hoje, não sinto nada. Será que eles gostariam? Não importa. Todos estão mortos.

Quando comecei? Já nem me lembro. Não importa. Como não existe mais ninguém, como todos estão mortos, também não há tempo. Talvez exista, mas se tornou tão curto, tão pequeno, tão milimetricamente medido, tão fragmentado, que ficou impossível de vê-lo, perceber sua existência. Nós já não conseguimos calcular. Começamos, estávamos tão confiantes. Chorávamos em cada passo de superação, e no fim, já não conseguimos mais, pois ele se tornou tão pequeno, quanto inexistente. Já não sabemos se de fato existe e como tudo deve ser realmente exato, tomamos o tempo por não existente.

Por que falei em nós? Se todos estão mortos. Mas, será que só tem um Eu? Será que de fato existe um Eu? Enfim, como poderei sabê-lo. Como medir isto. Enfim, não importa. No fim, farei como com o tempo, me darei por inexistente. Mas, então quem pensa? Por enquanto, a minha inexistência é um fato puramente especulativo e metafísico, diria místico, ainda falarei de um Eu. Como para existir e validar a minha existência é necessário um Referente externo, falarei em Nós, mais por convenção, para ajudar no cálculo. Em outro momento tentaremos ser mais realista. Eu sou referente de mim mesmo, portanto, somos nós. Talvez, para aprimorar esta sentença e evitar redundâncias, se usará a terceira pessoa: “Fez-se tal coisa”, ao invés, de “Fiz tal coisa”.

Enfim, conseguiu-se! Infelizmente como todos estão mortos, não poderão ver. Não. Não. Eles estragariam, como se disse no começo. Pois sim, eles são sempre tão imperfeitos, tão pouco exatos. Agora, o Mundo está Exato, mas o está sem as Pessoas. Isto é ruim? Talvez sim, pois seria a Prova de que é possível somar as coisas, de que uma coisa é perfeitamente comparável à outra. Sim, como poderia dizer antigamente com exatidão que “2+2=4”? Que seriam estes “2”? Como poderiam ser comparadas, para depois serem igualados e somados? Duas cadeiras. Mas, de fato como elas poderiam ser comparadas? Já se viu alguma cadeira perfeitamente igual à outra? Imagine-se 4 cadeiras perfeitamente comparáveis para chegar-se de forma confiável a afirmação “Aqui tem 4 cadeiras, pois são da mesma categoria, homogêneas e comparáveis”.

Não. Não. Não se podia. Na época que Eles existiam, não se podia comparar. Agora sim, todas as coisas existentes são perfeitamente comparáveis. São homogêneas. Pode-se dizer que algo X é igual a outro X, assim, X=X, e X+X = 2X. Sim. Perfeitamente possível. Agora, há coisas simétricas! Antes não! Apenas imperfeição! Hoje, sim. Hoje, quando eles se foram, quando já não há forças externas no modelo! Ah (…) como é bom. Sim! É muito bom. Também posso dizer o que é o “bom”, pois é perfeitamente mensurável. Os espaços todos dimensionados. Foco! Sempre faltou foco! Muitas imperfeições. Sempre! Eles viveram sempre de imperfeições.

Agora, não! Agora que Eles não existem mais, pode-se fazer tudo. Exato! Agora as formas são perfeitamente visíveis, elas se impõem em tudo: Argumentos bem formados, detalhes bem visíveis e evidenciados, cada vírgula e ponto em seu devido lugar. Sem imperfeições. Sem imperfeições. As coisas. Agora falar-se-á das coisas concretas que se criou neste mundo perfeito. Na verdade, não são concretos como se pensa no senso comum inexistente (morto). Desta forma seria impensável manipular estas novas coisas, perfeitas e simétricas. Sim. Sim. Sim! Genial

Ah (…) como se queria que todos estivessem vivos para ver! Não. Não. Eles sempre estragam tudo. Eu não admitiria que isto acontecesse. Eu? Não. Nós? Não. Pensar. Existir. Já conversamos sobre isto. Bom, sem mais especulações. Um modelo só pode ser possível sem pessoas, esta é a Razão de tudo. E, Eu? Que sou? Uma pessoa? Não sei. Não saber também, não possível. Dever-se-á voltar para as investigações. Não precisa. Damos por caso encerrado: Eu não existo. O pensamento pensa por si mesmo, logo ele existe sem ninguém.

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