Encontro Uranolítico

 

Por José  (escrito em 24/07/2011)

A próxima hora do domingo seco e ensolarado anunciaria a contradição irrefutável da consciência militante. Em especial seus trinta segundos finais, explicitariam o véu inebriante da certeza.

Urano. Planeta pré-humano cuja composição gasosa  compõe uma atmosfera tão densa, que violentamente sufoca e espreme no asfalto impiedoso, restos de corpos e papelões moídos. Móoca, zona leste da cosmopolita paulistana, cidade. Única saída inexistente da rua torta abre as portas para o Museu dos Imigrantes. À esquerda, um muro. Paralelo, rosa e pálido. Com portões de ferro aprisionantes essa barreira corada continha a prega de acesso a arte.

A Exceção e a Regra transporiam as barreiras alfandegárias da convicção intelectualizada, da certeza teórica, da arte revolucionária e…da realidade.

A peça didática do dramaturgo (e) revolucionário alemão cortejaria cada canto, praça, árvore e mente do complexo interior, não menos pálido, do muro. Seu texto claro e atualizado em relação às problemáticas do desenvolvimento do capitalismo, e suas contradições, nos nossos dias, faria com que os espectatores instigassem-se a refletir sobre cada gesto, cada palavra, cada respiração das personagens. Estranhadamente destruiria as nascentes identificações dramáticas, e alegoricamente construiria um distanciamento impregnado da dinâmica de um teatro de rua itinerante.

Toda essa volúpia art-brecht-marxiana poderia se autonomizar representando realmente algo sem representar algo de real, subtraindo-se de si mesma.

Entretanto, um número.

Latente e ressoante.

Germe inescrupuloso do conflito.

Os dados de mortes de militantes e vítimas de chacinas deliberadas pela ordem burguesa, os quais comporiam o epílogo da peça, explicitariam a dimensão da luta de classes no Brasil nos últimos anos.

Pelos nossos mortos nem mais um minuto de silencio. Toda uma vida de luta!

Fim da peça(!).

Limite da arte(?).

De volta ao real…?

Toda essa narrativa corresponderia a fatos reais lineares, e que, aparentemente, continuam a acontecer. Se não fosse o Perseu-narrador dar-se conta que seu escudo refletor não seria suficiente para enfrentar as moléculas refratoras dessa medusa atmosférica uraniana.

As duas últimas frases ecoantes do epílogo, fizeram nascer em meio aos espectatores em dispersão, uma brasa vital.

Essa brasa veio, através de uma mão negra e olhos que oscilavam entre revolta e cordialidade, acender um cigarro e entregar a oportunidade da satisfação do vício:

– Cê acredita que foi esse número mêmo?

– Ãn?!

– Os 111 mortos do Carandiru?

O primeiro trago, ao ouvir aquela pergunta, mesclava-se com a aflorada realização viciosa, austeramente orgástica: a reafirmação da detenção da verdade; e aparente humildade presente em um método socrático irônico. Contestando, eis o seguinte sopro:

– Acho que com relação a fatos concretos, não cabe a nós a tarefa de acreditar, não acha?

O projétil de revolucionário, preso cotidianamente a sua soberba afirmativa, não poderia esperar que a reposta seguinte o traria de volta a realidade, e sua certeza encastelada seria colada em xeque pelos próprios determinantes que a dão sentido.

Em simples frases, a brasa negra vital, com olhos que passaram da revolta para a convicção; e da cordialidade para a indignação; explicita o movimento da vida que inspirou o referido dramaturgo. Quebra a quarta parede do palco uraniano, e, com um soco, convida o resoluto escudeiro viciado a desconfiar da aparência:

– Han..Não! Foi mais de trezentos. Uns duzentos, eu vi tirá de lá nos caminhão de lixo! Esse cem, é só  pra ceis ficá chocado. A desgraça é sempre maior. Eu tava lá. Eu vi. Sô um sobrevivente do Carandiru, irmão!

Esse flash narrativo alveja a consciência cosmo-mítica do Perseu-militante, quando, ao sair pela prega pálida, lê acima:

Centro de Acolhida. Prefeitura do Município de São Paulo.   

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