Um Inimigo

Por Venâncio Guerrero

O sol tinha vida. Sim, era a grande Vida, como a fazia. Não apenas vida. Ele também era alma, espírito. Talvez, fora um Fantasma, ou um Deus? Não sabia. Ele realmente não sabia. Porém, sofria. O Suor respingava aos montes. Não agüento. Não agüento. Sim, eu agüento. Agüento há 20 anos. Talvez, uma hora não agüente mais. Verde limão. Verde intenso. Amarelo que cruza o peito, talvez uma faixa presidencial. Não, ele era um pobre coitado. Isto pensava de si mesmo. Às vezes, quando estava no bar e na balada pensava-se forte.

Ele estava ali com sua arma. Armadura e Coragem? Qual inimigo? O Sol. Sim, o Sol. Para quem trabalha horas nas ruas, de fato, era o principal inimigo. Ainda mais na cidade de concreto. Pois, não apenas a estrela escaldante cozinhava, como o chão ampliava o calor. O suor de concreto estreitava a humanidade. Forno cozinha pessoas. Forno cozinha ovos no chão. Forno é a calçada. Àquele luta contra o forno.

Aqui, vemos uma vassoura na mão. Calos. Muitos calos. Lixo no Lixo. Ainda, o Sol a queimar. Sim, ele trabalhava em meio ao Sol. Varria. Varria. Ali, naquela metrópole de concreto. Enfrentava a Opressão do Calor. Maldito trabalho, tenho de agüentar este calor. Um dia vou matar este Sol. Imagina! Chegar numa escada, pegar pelo colarinho e sentar cacetadas com minha vassoura neste Maldito Sol! Neste dia vou ser feliz.

Carlos, não viaje. Não viaje em seus sonhos. Sem direito de Sonhar. Agora, é trabalho e trabalho. O Calor Sonhava. O Sol Sonhava. O homem trabalhava nas ruas e no concreto que suava. Varredor. Sim, o Varredor era carlos.

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