Canção I Da História que ainda virá


Por Venâncio Guerrero

O calendário ditava as regras do trabalho no campo. O calendário trazia significados e sentidos. O calendário ordenava personalidades, costumes e funções. Energia, Jaguar, Sol, Vento, Lua, Mais Animais, simbologias de sentidos de humanidade. Sim, ali não era fácil, a vida era precária, havia divisões, incipientes é claro. Não era o Paraíso na Terra, nunca ninguém disse isto. Mas eles faziam uma Leitura do Mundo, uma Narrativa de si mesmos. Aqui, foi roubada muita coisa, ouro, terras, vidas, sangue, mas principalmente a capacidade de formular a própria vida.

Foi assim que eles tiveram de vestir roupas impostas, depois que se acostumavam com suas cores, também deviam mudar. Foi assim que eles tiveram de falar uma língua alheia a sua terra. Foi assim que eles foram sendo reduzidos, estreitados, e perderam seu território, lugar de construção de sentidos.

Um choque de mundos. Sim, de fato. A modernidade trouxe benesses, ninguém as nega. Mas, também trouxe uma pobreza própria, a Pobreza de 500 anos. Um Fantasma que assombra todos as psicologias do Mundo da América, e principalmente daquele Mundo chamado América Central. Um choque inicial de guerras, de negociações, de exércitos conhecedores dos territórios, de brigas internas, de etnias que serviam ao invasor.

Este mundo também produziu Canção e um Novo Povo. A América Central de muitas dores, amores e canções. Aqui os Homens e as Mulheres viverão a Lei dos Vagabundos que obrigava cada individuo naquele Mundo a trabalhar para outrem. Aqui obrigarão aos seus filhos produzirem café e mais-café, a disciplina do trabalho será imposta do dia em que nascem ao dia em que morrem. Foi imposto uma forma de viver e vão tentar desfazê-la e reconstruir outra. Pois, é da Negação deste Povo que ele faz a si mesmo.

Aqui vemos um choque que produziu Nações, que produziu a República da América Central. Duas vezes. Era o Sonho de Morazán. Não, não, pois depois outras divisões, outras brigas entre famílias dominantes.  Brigas de fronteiras. Brigas bobas. O poder já não era do estrangeiro, mas não importava, pois os donos do dinheiro sonhavam com a cabeça de fora. Era a guerra de futebol, que começara entre brigas de torcidas, entre brigas de países que queriam ir para a copa do mundo. Mentira, era a briga ainda boba, era coisa de mercado, quem tinha a melhor cota deixada pelos estrangeiros. É briga de osso de cachorro magro. O que sobra para o Verdadeiro Povo? Nada.

Mas, eles tentariam cantar, dançar, é aqui que o passado, o presente e o futuro caminharão sempre juntos. Eles caminharão nas guerras, nos amores e no cotidiano mais simples. Eles estarão no cantor salvadorenho que canta em pequeno espaço no Canadá. Ele cantaria as dores de seu país, a saudade que sentia no exílio. Também cantaria para continuar vivendo, para manter o riso e o sorriso que o fariam lutar. Pois, sim, sua canção tinha lirismo, dureza e fantasia. Aqui o Sangue e a Canção bailam juntos.

Era assim que queriam destruir. Sim, devemos destruir para construir. Devemos destruir muitas coisas. Devemos destruir a Ponte construída de Ossos daquele Povo. É a Ponte do Diabo. Cada homem que tentava atravessá-la era morto e fazia parte de seu trajeto. Ah (…) a trajetória da Vida ingrata, regida pelas regras da morte. Assim seria a ponte entre o passado e o presente, ter que passar por cima de ossos de antepassados. Imposto por forças malignas. Não, eles deveriam destruir a Ponte e o Dono da Ponte. Resgatar àqueles Ossos.

Destruir é Esquecer? Não. Não podem. Eles queriam esquecer, é fato. Não deviam. É necessário rememorar para destruir no Hoje, a Opressão Passada. Isto sabe aquela mulher que luta, ama e gera sua prole também lutadora. É guerra. Os Filhos vão para Cuba, Europa, sendo criado fora do caos. Aprendendo que um mundo poderia viver sem publicidade. Aprendendo de verdade com educação de qualidade. Aqui, ela perde o marido, ele morre, mas ainda tem amor para dar. Conhece um irmão da América Central, também lutador, com ele quer viver novo amor. Não consegue. O Marido é opressor. Ela deve fugir, não da guerra, que acabara, ela deve fugir do Marido. Ela vai para Espanha, ainda a História de seu país vive em seu coração. Ela faz teatro sobre o seu Mundo, revive suas memórias, e ainda tem Esperança, vive no pólo da canção. Assim ajuda a Destruir este passado de dor.

É assim que são revividas as histórias dos meninos que sumiram na Guerra. Sim, eles sumiam, desapareciam em meio ao caos. Eram as migrações. O re-povoamento feito pelos guerrilheiros. Resistência à política de terra arrasada que será contada pelos nomes de Nossa História. Depois das cinzas da terra em fogo, eles se re-encontravam. Depois de anos e anos. Agora eram grandes e seus pais não eram os mesmos. Inventavam um mundo para eles. Outra História? Talvez. Era a tentativa de destruir Thanatos. Sim, era a tentativa de Recuperar Sonhos e Esperanças.

Era o Vulcão que de sua lava faz um rio. Sim, esta era a vida deles. Das catástrofes fariam vida. Podiam matar, esquartejar, oprimir, querer acabar com sua identidade e cultura. Não, não podiam. Eles fariam muitas canções em meio ao sangue. Sobreviveriam ao impossível. Ele nasceria do fuzilamento dos 30 mil, em 1932. Sim, sobreviveria e renasceria no 3° dia. Contaria a História para posteridade. Reorganizava todos, e ainda lutariam.

Sim, ainda lutariam. Mesmo que eles baixassem à cabeça para os estrangeiros. Mesmo que os indígenas saíssem da calçada para a passagem de um branco. Mesmo que os indígenas achassem que não poderiam tomar do mesmo copo que um branco, e que sua língua era vulgar e tosca. Mesmo que Honduras tenha de abaixar a cabeça para os Estados Unidos, aceitando Soto Cano, aceitando matar, ser base de operação para perseguir irmãos centro-americanos. Mesmo assim, eles ainda tinham esperanças. Mesmo assim, poucos se fariam muitos e resistiriam. Sim, as memórias de sangue se combinariam com as canções. Aqui, as dificuldades se fariam múltiplas. Os golpes, as ditaduras, os militares, as guerras.

Mas, não, não aceitaríamos! O jovem seria rebelde, pois ele ainda teimaria em querer ter uma vida digna. Ele ainda iria para o bar, tomaria sua cerveja, dançaria e falaria sobre utopias futuras. Ele sonharia, sim, em destruir a Grande Fortaleza, ali, de Espelhos, Gigante, refletindo um passado em que eles escreviam suas próprias histórias. Aquele Grande Tikal, falando de um Futuro que não lhes pertencia. Daquele Grande imponente centro comercial em meio à pobreza que beija seus pés. Ah (…) àquela Pirâmide da Modernidade Imperfeita! Sim, o Jovem lembraria dela no Bar. Recordaria de todo o passado, do tempo em que ele interpretou a si mesmo, em que a Pirâmide fazia Sentido. Lembraria que era uma vida precária, não queria voltar à velha opressão. Queria fazer outro Tikal, respeitando o tempo que eles escreveram o próprio tempo, destruindo o Tikal que era imposto pelo Tempo do Dinheiro e do Consumo.

 

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