Tempos de Concreto e Aço.

Por Venancio Guerrero

O Concreto vai crescendo e crescendo. Nascendo como árvore eterna. Dali brota os mesmos Carros. Carros. Carros. Muitos carros.  Realmente, era muito Carro. O Concreto, o Aço e o Carro. Marginais. Elevados. Túneis. Livre para andar, Livre para correr de Carro.  O concreto demanda aço, e os carros nascem das pontes, das obras mil. Casas são desapropriadas. Gigantes rodovias são feitas. O concreto invade as águas. O Progresso vem com rodas. No final alguns parques para os carros respirarem.

Os carros corriam por meio dos Homens. Buzinas. Rodas. Muitas Rodas. Outros. Onças. Tigres. Leões. Elefantes de aço e rodas, não, não. Um Ônibus gritando. Ali, eu paro, não, não. Ali, ele deve correr pela imensidão de concreto. Corre pela via de concreto. Corre pela via, outrora rio. Carros, mais carros. Eles se metem, querem correr, correr e correr.

Assim, era regido o Tempo daquela massa de gente. Assim, se implantava àquela sociedade tal como ela sempre quis ser, tal qual ela merece, tal qual ela será para sempre, pensa o Homem de óculos, de terno cinza que planeja no gabinete. Sim, Carros e Mais carros. Eles imperam em tudo, ali gritavam, ali viviam, sim, ali ditavam as Horas, o Momento e o Movimento.

Ali, o Ônibus pára. Ali, descem, descarregam. Boiada que desce. Eu sou boi. Ando de Ônibus, logo sou boi. Ali vai um! Vão dois, três e quatro! Vão milhões! Sim, são milhões os viventes na metrópole de concreto. São milhões na Metrópole feita de sangue de índio, negro, de bandeiras sangrando.

Conduzo, não sou conduzido gritam os Bandeirantes para os Portugueses. Por isto o vivente em São Paulo conduz carros. Existe no concreto, existe para os carros. Em verdade,  são os carros que conduzem, os carros são os cidadãos em São Paulo. O tempo é do movimento de rodas, aço e mais carros.

Ali é o tempo onde a Moça tem cara amarrada. Magra, bem magra. Coitada. Não. Não. Ali, ninguém pode ter dó de ninguém. Pois é onde os carros correm. Grande rodovia. Ela vai pedir dinheiro. Vagabunda. Quer trabalhar, tem onde carpir mato. Mendigos vivem de dinheiro dos outros. Tem gente que fica rico só com esmola. Ela é malandra. Assim, eu também quero viver, só de esmola. Todas estas vozes se calariam com a cena invisível. Pois sim, depois que os carros se vão, que ela se vira para o concreto imperial, lágrimas rolam de seu rosto, não era uma criança mais, porém esta face chorosa de 30 anos recorda a fragilidade infantil.

Não Importa. Não importa a Moça que chora. Ali, ninguém tem tempo para isto. Ali, o Tempo é feito também de concreto. O tempo se esvai. Pois, é vento ventania. Tempo, quero você. Não, não pode. É o tempo que Acordo. Desperto. Ônibus. Muita gente, muita gente, realmente há muita gente. Entro, me aperto, braço dói. A menina negra senta e dorme, bonita em seus cabelos de caramelo canela. A amiga também dorme, senhora, gosta de bailes ainda. Depois, metrô ou trem, mais aperto, mais gente. As pessoas sempre param as portas, e a voz soa: “Parando para esperar movimentação do trem à frente”.

Depois, é trabalho, trabalho, trabalho, muito trabalho: Varro, pinto, crio, teclo, teclo, vendo, vendo, vendo, martelo, britadeira. Grito e corro da polícia. Ah (…) eles roubam minhas mercadorias. É melhor vender barato que dar para o rapa. Noutro lado também trabalho: Estão a suar o Colarinho branco. E noutro mais suores, agora de testa com Capacete. E, mais, mais. Algumas Roupas desbotadas e suadas, com uniformes amarelos de vendedoras.

Sim, o tempo se esvai de nossas mãos. Queremos pegá-lo, mas ele some nas horas do Trabalho. Ele vai sendo consumido pelo teclado, pelo produto vendido, pela ferramenta que corta azulejo, sim, ele vai, e vai, e some. Ele gravita no ar. Trabalha. Trabalhe, Trabalhamos e o tempo se vai. Ali, ele corta, aperta e usa do indicador, daquele dedo que o fez o Homo-Faber.

Passe tempo, passe tempo. Por que passar? O tempo não é vida vivida? Corremos para onde? Tempo! Agora é hora do almoço. Sim, queremos comer. Tempo do nosso estomago. Sim. Apita. Grita. Barriga grita. Paramos em fim. O cobrador e o motorista descem da máquina gigante, o coletivo de aço.

Hoje, é segunda, hoje é dia de Virado à Paulista. Comemos? Não, não podemos. Devemos comer rápido. Tenho de fazer em 30 minutos o almoço, menos, não, menos, 15 minutos, não posso mais que isto. Tempo! Mastigam, engolem, pequenas refeições, sim, alguns salgados, isto, aquilo.

Eles realmente não têm tempo. Voltam ao trabalho. É o motorista, o vendedor, o funcionário genérico, o professor, operário, pedreiro. Todos com suas milhões de funções, multifuncionais, pernas, braços, e olhos de milhões de funções para outros. Preparar aula, preencher planilhas também genéricas, fazer massa, regular a máquina. Ah (…) eu não consigo pensar, tenho de servir, não consigo ver o tempo. Ah (…) eu quero que ele passe, quero acabar o dia.

Todos trabalhando, todos vivendo no concreto, entrecortados pelo aço. Ele faz. Ela faz. Depois é dinheiro no bolso. Não. Não. Nada é concreto para eles. A dívida e as contas comem tudo, impõe o tempo passado e o tempo futuro nos juros.

Sim, para eles nada é concreto. Tudo é concreto para os carros. O tempo é cortado pelos carros e pelo aço, aqui sim é o concreto. Pois sim, findo trabalho é ir para casa. Terminou o dia, você nem viu, nem quis ver, já está no ônibus a olhar os muitos carros. Não, que merda, que fila, que trânsito. O que tá acontecendo, quero ir para casa.

Aqui, o tempo é o tempo da Chuva, da Enchente, aqui os carros enfrentam as águas bravias. Aqui, a briga é boa, Progresso contra Natureza. Concreto contra Água. A Natureza reclama os rios perdidos, impõe seu caminhar. Desmancha, traga e come, grita em meio às avenidas. Não. Não! Os motores morrem. Não podem morrer. Sim, é o ciclo da vida dos carros. O raio de sol declara a vida, e o concreto expele o invasor natural, aqui os Carros voltam a impor-se.

Giram, correm e deslizam na estrada de São Paulo. Depois do alvorecer, é o tempo noturno. Os carros diminuem, o tempo de chegar em casa. O tempo que se esfacela, é o tempo da volta da universidade, é o tempo do cansaço. Dormir, dormir. Acordar, acordar. Assim, os Carros voltam. Eles se impõem no despertar da manhã.

Sim, sim. O Carro é Preciso. Humanidade não é Necessária. Descarta, descartável. Outra vez, mais trabalho. É menino que vai de fone no ouvido. Trabalha no Grande Centro Comercial. Grande Shoping Center. Ele abre a loja. Seu tempo é curto, o ônibus atrasa, ele desce correndo. Aqui, também outros rostos se encontram entre o tempo do sono e do atraso no trabalho. A Moça de boca aberta faz do banco a extensão da cama. Assim, segue o Moço do lado, montador de móveis, a outra, recepcionista.

O trabalho voa, o mundo voa, as rodas também. São os Carros e o Concreto que não dão sossego. O trabalho é cansativo, e o tempo escasso, mas ele também não passa quando a gente quer. Aqui é sexta-feira. Eles correm junto com o aço para chegar logo em casa. Não. Em casa hoje? Eu não. Hoje é dia de festa. Vou para o bar. Sim, beber.

Então é assim. Ainda, Correm. Todos correm. Uns para dormir e outros para viver outra realidade. A Menina quer ir para o baile, ir até o chão, é funk. Outro quer escutar samba de raiz. Os de preto e de maquiagem querem curtir o rock, e outras variantes da música de metal. Correm. Correm todos. Carros, ônibus, metro. Não. Não! As máquinas de aço não podem correr. Por quê? Pois, está cheio de carros que impedem a circulação. Param todos. As linhas de metro são poucas, as pessoas são muitas, aí fica demorando sempre.

O tempo da noite é curto. Ainda convivem com carros, sempre. É o carro com sons, com gritos e músicas mil. Eles dançam ao redor dos Deuses de Aço. Copos ao seu redor, rito da modernidade distópica.

Aqui o tempo ainda se acelera, eles não querem que acabe. Assim, é o tempo das drogas eufóricas, do movimento intenso e do sentimento nas alturas, é para intensificar a vida no tempo presente. Ainda, a das relaxantes, sentir realmente a vida que passa. Sem falar nas Fantásticas.

Mas, não podemos. Não dá! Que coisa! Nada pode parar o tempo do concreto e do aço. Dormir. Acordar. Ressaca. Os carros descansam. Enquanto a humanidade é tragada pela máquina tonta, pelo programa televisivo de domingo. Nem tempo dá de ver o pequenino menino dar seus primeiros passos. Não! Nãoooooo!

Sem tempo, acorda. Já é manhã. Trabalho. Vai trabalhar. Olhos remelentos, café, bolacha, nada, não dá tempo de fazer café da manhã. Saía correndo, 30 minutos de viagem, não, não! É 1:00, não, não! É 1:30. Até 2:00! Vamos. Vamos. Corram. Corram. A semana começa em fúria. O aço e o tempo e o dinheiro se namoram. Os carros deslizam alegres e os homens e mulheres se apertam no ônibus. Aqui tudo se aperta. Enquanto tal, os carros são livres. Aqui, o vivente na Cidade de Concreto sonha em acessar integralmente seu tempo, em poder ver o tempo passar.

Não! Não! Não podem. Pois, os Carros correm. Trabalho. Os Carros param. Engarrafamento (…)

 

 

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