Entre cinzas, aviões e amores.


Venâncio Guerrero

(in: Nossa História é Feita de Canção e Sangue)

Dia realmente cinza. A cor envolvia todos, no corpo, na mente, nos olhos e no coração. O aeroporto estava um caos. Tudo parado. No meio da pista, somente trabalhadores. Um deles, José, buscava aplicar-se. Ele olhava àquelas máquinas paradas, mortas e pensava que poderia dirigi-las, dar outro vôo, outra direção para seu movimento. Quem era ele para isto? Um empregado somente. Ah (…)! Naquele momento todos dependiam Dele, do reles empregado e de seus companheiros. As máquinas estavam paradas, os aviões calados e as pessoas em suas casas apreensivas. Ele tinha de limpar e limpar. Reconhecia seu valor!

Dias turbulentos no país da América Central. Furacão e Vulcão juntos. Os deuses entravam em acordo para molestá-los. Uma chuva de cinzas encobria todo o país. Resquícios do fogo. Despojos de fantasmas. Além disto, o furacão gritava e inundava o oriente. Enfim, eles superavam e lutavam contra isto. De fato, o país dependia do heróico de seu povo, menos da iniciativa do Estado.

Aqui José entrava com seus companheiros. Limpar e limpar. Algumas pequenas máquinas. Ele com a velha de sempre. Vassoura a varrer! Naquele dia todos queriam ficar em casa. O medo da natureza. Galhos. Pedras. Água. Mulheres atravessando rios com lenha. Quedas de casas. Cinzas, mais cinzas. A terra cuspiu lava. A terra está brava. José soube da morte de turistas, dormiam ao lado do vulcão. A cidade foi evacuada, sem mais perigos, a explosão inofensiva.

Matar um estrangeiro. O vulcão matou um turista! Imagina! Eu ir para outro país e morrer num vulcão. Tão triste. Tão trágico. José não queria pensar nisto. Tinha de trabalhar. Por mais que os dados do tempo, dissessem o contrário, ele estava de bom humor. Ele havia roubado beijo de sua menina, fora pouco antes do caos. Ainda sentia o prazer da paixão nova. Estavam ali, conversando, dançando, e foi (…) Quantos anos se conheciam? Quanto tempo? Ah (…) ficara sempre a esperar fim dos namoros, a espreita para ver se chegava sua vez. Agora sim! Este era o momento. Não podia por tudo a perder.

Sua Menina, escura terra molhada. Que lábios tão tranqüilos. Sedução pela simplicidade. Que ela está fazendo? O coração de José transtornava. Insegurança. Medo. Medo. Não podia temer. Frio na barriga. Ele tinha de controlar-se. Vermelhidão na cara. Ela gostava dele agora. Não podia temer.

Varria. As cinzas eram retiradas. Mais cinzas. Isto é infinito? As pessoas viram cinzas quando são cremados. Será que o Vulcão é feito de pessoas que explodem em cinzas. Naquele dia fazia frio. A chuva dera trégua. O Avião a olhá-lo. Será que virão mais cinzas? Mais furacão? Não! Deveria parar. Ele cansava de passar tanta escova. Já se sentia tomado pela própria cinza, estava totalmente sujo. Ele queria que acabasse tudo aquilo, que pudesse sentar no bar, tomar sua cerveja e conversa com sua menina. De fato, era dura a vida com vulcão e furacão, mas valia a pena ser vivida ao lado de sua menina. O país sempre tomava estes tombos, mas eles se reconstruíam, cada passo, cada catástrofe ensinava novos caminhos.

Será que um dia poderia pilotar aqueles aviões, aqueles aeroportos. Os amigos todos dirigiriam o aeroporto? Há! Nós aqui, na gerência?! Delírio, delírio. São as cinzas deste mundo que me fazem delirar com outros. Será que o mundo passaria por mais catástrofes, tsunamis, terremotos? O mundo mudando, virando do avesso, nós também podemos sonhar em pilotar aviões. Ah (…) Delírio, delírio. Mas, delírio gostoso. Voar. É tão bom voar e dirigir as coisas. Tenho de concentrar-me em varrer. Acho que estas cinzas estão revolvendo minha cabeça.

Gostava de pensar em outras coisas. Ele lembrava o desespero de sua Menina quando soube da erupção do vulcão. Ela tem familiares na cidadezinha em que explodiu a catástrofe. Aflição, ligar e ligar. No fim, sem grandes conseqüências. Ele ficou ali do lado, perto e paciente. Apoiava e sabia o que sentia. O coração da Menina no seu ouvido. Em breve, iriam consumar a relação, pois ainda não tinham feito amor. Assim, era melhor, pensar na Menina, fugir aos delírios. O que fazer com o seu relacionamento? Como seria? Não dá para saber, vamos vivendo um dia depois do outro.

Ah (..) o coração apertava, o que ela estaria fazendo? Estaria em casa. No trabalho houve dispensa geral. Só ele ali a cavar, varrer e retirar o elemento fundamental de tudo, as cinzas. Em casa, estaria sozinha? Não haveria ninguém ao seu lado? Será? José não gosta da amiga dela, antes também sua. Mas, sente que a Amiga representa caos. Será que estão fazendo uma festa, uma Festa sem mim? O coração dele entrava em erupção. Não podia. Olhava as cinzas. Agora o coração é vermelho, mas poderia como o vulcão, virar-se pó, cinzas.

Ele continuava a varrer e a varrer. O avião ainda seguia intacto com seu bico apontando o horizonte. A máquina morta em meio às cinzas. José sonhava com sua Menina. A vida seguia depois das catástrofes. A senhora levava em sua cabeça um fardo de lenha, queria atravessar a rua inundada, depois tentaria reconstruir sua vida dos destroços do furacão. O tempo ia mudando, o sol cortava uma nuvem ainda rebelde. O dia retomava sua vida.

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