A Rua

por Venâncio Guerrero.

Integra contos do livro: Nossa História é Feita de Canção e Sangue.

Eu morri, por isto me relato. A morte é algo dolorido, isto é fato, uma perda de consciência instantânea. Não há desintegração total, nos tornamos migalhas e fragmentos daquilo que fomos, este pequeno relato é o que sobrou de mim mesmo. Bom, é um fragmento não da minha vida, esta cheia de turbulências, o blá-blá de sempre. Não quero entorpecê-los, tenho pouco tempo e espaço para isto. Por isto, quero falar do que é importante: da minha rua, da onde eu tirei tudo, sustento, miséria, fome. Minha profissão: banditismo. Meu nome: Não interessa, para quê saber o nome de um fragmento, nome é para doutor, pessoas que estão nos quadros e livros. O único nome de morto que serve é o que figura nas placas de ruas. Por isto falarei da minha Rua.

Pobre e cheia de miséria. Uma rua vagabunda. Sim, eu a tinha, eu podia dizer: esta rua é minha, digo nossa. Por outro lado, também era líder e tenho mais titularidade da rua que meus companheiros. Voltamos, a Minha Rua. Nela exercia a liderança de uma gangue. Sim, sim, podem dizer que fui um marginal, um qualquer-coisa, mal de coração, assassino, e tudo isto, que morri e isto é bom. Enfim, não há problema, desde que me escutem sobre a Minha Rua. Pelo menos agora que morri tenho direito de contar algo, e ser contado por este algo.

Voltando a Minha Rua, eu a conheço desde de sempre. Desde das guerras, do momento em que me tive por consciência, e mesmo agora, como um fragmento desta, eu a vivo em mim. Correr. Chutar gatos. Depois, meninas, meninos, depois todos. Sim, era a forma como ocupava a Minha Rua e o Meu Tempo. Nem me lembro de quem me criou ou me fez, pois creio que a rua foi tal Pessoa. Tinha uma época em que saía mais dela, mas com o tempo fui tomado por ocupá-la, senão outro o faria.

Organizei o bando numa casa velha que também ocupamos, ali passávamos o tempo, ordenava nossas finanças: os pequenos assaltos e a cobrança da taxa de segurança dos vizinhos. Acima de tudo, a vigilância constante do Local, combatendo nossos rivais, a gangue outra, além de pagar os policiais. Eu andava a esmo, olhava e discriminava cada um que entrava, ainda chutava quem eu queria. Sabia e ordenava cada pedra daquele Local. Passava meu tempo mandando, cumpria poucas ações de fato. Eu era o Líder, não podia dar-me o luxo de ir pro corpo-a-corpo e a morte corria ao meu lado, como de fato me alcançou. Assim, eu podia viver melhor Minha Rua.

Paramos de falar de mim, e falamos Dela, minha amada imortal. Sim, viveria para sempre como seu fragmento, neste espaço de concreto, vida, miséria e morte. Ali, se encontram todo tipo de gente, boa, ruim, pobre, quase pobre e indigente, moral, imoral, bêbedo, crente e descrente, prostituta, estudante e tudo o mais. No começo podemos ver a velha senhora que vende tortilhas, pupusas, sempre ali a tortilhar, e conversar sobre todos os acontecimentos da Rua. Também, tem o mercadinho e a loja de mecânico, isto tudo na Avenida que corta a totalidade da Minha Rua.

Eu falo no singular, mas é para significar o corpo que organiza aquele Espaço. Pois, sim, a rua era um grande lote, que foi cortado por uma Avenida, e nas laterais se construíram vielas, becos e casas idênticas. A rua é como se fosse um círculo, formado por 7 feixes paralelos, que picam a Avenida principal. Ali, que está nosso esconderijo, em meio aos becos, aos espaços sem saída. Corremos a noite para pegar nossos inimigos, ali atiramos e matamos. Ali vivemos e amamos. Protegemos os comércios. Não assaltamos ninguém ali, mandamos grupos batedores em outros lugares que nos trazem caixa diário. Podemos dizer que da Minha Rua se forma outro grande arco que é nosso território expandido, saindo dali é conflito com nossos Rivais. Fazemos isto, somente em momentos especiais, com toda organização tática e estratégica.
Entrar nos becos é perder-se na imensidão da Rua, ela parece um cubículo de nada. Não, não é assim, você entra e não sai, obviamente, que nós ajudamos no inviabilizar desta saída. Entrar é como aprofundar num mar, ali está cheio de pessoas e suas vidas, e camadas e camadas e camadas da mesma coisa, de histórias, de músicas e canção, e morte, e miséria. O espaço desta Rua estreita tudo isto, e é impossível retroceder, não, não podem retroceder, somente aqueles que nascem na Rua sabem retroceder.

Foi ali, andando, perdido em meio aos becos, correndo por escadas que não conhecia que cheguei aqui. É difícil dizer, pois nem eu sei, meu final foi entre becos sem saída. Enfim, vou contar o que sei: Estava num dia como outro, sentado na calçada vigiando a Minha Rua. Já havia dado ordens para meus súditos. Carros, pipas, barulhos, meninos e meninas explodiam nos meus ouvidos. Olhava os moradores da minha rua passarem. Eu, um menino novo até, cheio de tatuagem, tive um momento de explosão. Senti o perigo, então (…)

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