julia

(pedro carrano)

Agora Julia não tem mais problemas pra viver o tédio do deserto cercado de sal onde está cravada a cidade de Uyuni. Quando alguém sente a sua falta, sabe onde achá-la: a menina fica das seis da tarde até de madrugada na única casa de internet da cidade, na única rua urbanizada de Uyuni, aquela onde estão as casas que vendem pacotes de turismo.
Conversando no msn, sem querer a jovem descobriu que o castelhano a leva mais longe que o quíchua ensinado pelos pais. Que as cordilheiras são uma imagem que não merece o mínimo flash dos olhos de Julia. Às vezes ela fecha mais cedo o comércio onde trabalha sozinha, pra entrar no chat. Não sente falta das moscas se aglomerando sobre as frutas que Julia tem de vender. Não sente falta do tempo e do sol acumulados no mercado. Mas ela também não imagina que agora está perdendo, na única e velha praça de Uyuni, o cheiro da pele dos meninos que ainda se juntam por ali.

(março de 2005. Uyuni. Bolívia)

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