Miséria nas fábricas maquiladoras, miséria no campo, miséria no mundo do trabalho

Pedro Carrano,
Venâncio de Oliveira,
de La Libertad (El Salvador), para o Brasil de Fato  
 
“Somos seres humanos e não bestas de cargas”, exclamou uma das 170 trabalhadoras de diferentesmaquilas de tecidos. Elas se reuniram no litoral de El Salvador, por meio da organização Mélida, para discutir este trabalho marcado pela exploração da força de trabalho feminina. “Alcançamos as metas de produção, mas não ganhamos horas-extras”, reclama Ana Gloria, mulher que precisa costurar 700 peças de roupa por dia. Mãe solteira, deve garantir a comida dos dois filhos. As maquiladoras são implementadas desde a década de 1990, com um discurso de modernização e novos empregos. “Importam o mesmo que exportam, geram demandas sociais e não pagam impostos por isso. Saem do país mais fácil do que vieram. Demandamos um fundo de segurança contra este tipo de desemprego”, explica Marina Ríos, da Mélida.

Desde o começo de 2008, 14 empresas fecharam no país, ao contrário do que apontam os números do Ministério da Economia, que fala em somente quatro. De acordo com o Sindicato General de la Costura, foram 10508 mulheres despedidas neste ano. Nem todas as plantas e zonas francas contam com sindicato de costureiras, devido à coação por que passam as trabalhadoras junto aos chefes da produção. “O trabalho de organização tem de ser clandestino, uma vez nos descobriram organizando um sindicato e a maioria das mulheres foram demitidas”, conta Marina. Dentro da fábrica, as mulheres sofrem pressão por maior produtividade. Fora dela, está a violência, quando o trabalho acaba de noite.

Francisca é uma trabalhadora organizada há seis meses, porém com 16 anos de trabalho nas maquiladoras. Conta que as operárias devem produzir com metas de trabalhos, uma cota diária que revela-se impossível de ser cumprida. Nada de pagamento de horas extras. A meta então deve ser alcançada nos finais de semana ou no dia seguinte, uma hora mais cedo. As mulheres trabalham em diferentes atividades e linhas de produção ao mesmo tempo. Francisca aplica oito diferentes modalidades de costura, em máquinas e fios que, de acordo com ela, estão desgastados. “Não podemos falar durante o serviço”, lamenta a trabalhadora Ana Gloria. As mulheres sofrem com pressão moral. “Se uma operária não cumpre as metas, sofre com um apelido, colam o adesivo de uma tartaruga na sua máquina. Se tiver produtividade ganha um adesivo de furacão”, explica Marina Ríos.  
Francisca, assim como Ana Gloria, Juana e tantas outras mulheres, apontam que não usam equipamento de segurança – acidentes acontecem nas máquinas de costurar. “Uma companheira conduzindo uma máquina sofreu um acidente, a agulha entrou em seu dedo”, expõe Francisca. As mulheres são submetidas à exploração do trabalho e de gênero, sofrem pressão sexual, os supervisores pressionam as mais jovens. “As maquilas de tecidos exploram especialmente as mulheres, pois são trabalhos que elas aprenderam em casa. Articulam-se as opressões, o patriarcalismo e o lucro, querem uma mulher com determinado estereótipo, pagam menos que os homens. Os empresários pressionam para que as mulheres façam exame de gravidez e Aids, isto é proibido por lei, mas continuam tendo esta prática”, comenta Marina Ríos.

De acordo com o Sindicato General de la Costura, o seguro social computa 70 mil trabalhadoras no país. Porém há cerca de 20 mil não registradas. Cerca de 60% das trabalhadoras são mães solteiras, com idade entre 18 e 26 anos. Férias são uma dificuldade para elas, as empresas demitem neste período ou pressionam para seguir trabalhando. Seus baixos salários não permitem que tomem café da manhã. Depois de jornadas de 8 a 12 horas, ficam debilitadas e não tem tratamento médico adequado. As mulheres lutam contra flexibilidade laboral. “Liberdade de jornada, dos salários, da disposição das trabalhadoras, ruptura com o contrato do trabalho são estratégias de exploração. As mulheres não podem atrasar o horário de chegada, não tem hora para sair, são facilmente demitidas, não se paga horas extras e noturnas”, Marina Ríos.

Mulheres e a resistência política
Na época da guerrilha dos anos 1980, as mulheres integravam de 25 a 30 por cento das tropas guerrilheiras, de onde saíram combatentes, como Ana Maria Melida, quadro do Sindicato de Professores que integrou a guerrilha do FMLN, e inspirou a organização de mulheres Mélida. A organização atua em quatro áreas: capacitação feminista e laboral, atenção jurídica, organização de comitês e formulação de leis. “Nos inserimos nas comunidades, formamos associação e comitês com as mulheres, em seus locais de moradia. Nas fábricas temos dificuldades: há repressão, tem de ser um trabalho clandestino. Ajudamos com a organização sindical, diferente do tradicional: uma mulher sindicalista com posto de direção e com conhecimento de seus direitos trabalhistas”, descreve Marina Ríos. Buscam, ainda, organizar marchas, mobilizações de ruas e inserção em greves. 
Anúncios