Em El Salvador, antiga guerrilha pode chegar ao governo

Frente Farabundo Martí pela Libertação Nacional possui inserção nos setores sociais, mas, segue a lógica eleitoral do PT brasileiro

de San Salvador

(El Salvador)

Anos de guerra civil, encerrada na década de 1990 e marcada no imaginário popular. Logo veio a desertificação neoliberal e agora uma nova janela se abre para os salvadorenhos. O país prepara-se para as eleições legislativas e municipais, em janeiro, e presidenciais, em março.

A polarização se dá entre dois partidos. De um lado, o ofi cialista Arena governa o país desde 1989 e tem o discurso abalado com a crise do neoliberalismo. A frágil burguesia local, importadora e dependente dos EUA, aposta nessa opção e no discurso de medo. Sem projeto político, vem fazendo concessões à esquerda, prometendo o passe-livre para os estudantes (uma luta histórica dos jovens salvadorenhos).

A histórica Frente Farabundo Martí pela Libertação Nacional (FMLN), por sua vez, gera entusiasmo entre militantes e as massas populares. A caravana que deu início à campanha mobilizou mais de 300 mil pessoas. A Frente faz o discurso da mudança, da esperança, da necessidade de moderação para governar em meio à crise – a difícil opção de unir interesses divergentes. Maurício Funes foi o candidato escolhido para a disputa eleitoral de 2009. Apresentador televisivo crítico, ele não era militante do partido até então. Em novembro, o candidato viajou a Washington para tranqüilizar os investidores.

O FMLN é o partido herdeiro da insurreição de 40 mil camponeses em 1932, das lutas do bispo Romero, da guerra civil dos anos de 1980 (veja quadro nesta página). Membros da Frente apontam que houve um movimento de refl uxo das lutas de massas após a assinatura dos Acordos de Paz, em 1992. 

 

Gestão cidadã

Hoje, existe o risco de fraude por parte da Arena, e o FMLN busca uma política que, no geral, seja contrária ao neoliberalismo. “O atual governo colocou 500 milhões de dólares para oxigenar os bancos. Queremos reformas que levem tranqüilidade para as pessoas. Nenhum processo pode-se manter com base na lógica eleitoral: há risco de fraude, pois as cartelas de votação não possuem o selo oficial”, afirma um membro da direção do partido.

Durante a “Tribuna Participativa”, quando os deputados do FMLN passam informes para o povo que se aglutina às sextas-feiras em frente à catedral de San Salvador, militantes do partido defendem a construção de gestões cidadãs. “Mudar a maneira de fazer política para um modo mais participativo, no qual o cidadão seja o ator principal”, defende o deputado da Frente Hugo Martinez. Embora o movimento social no país seja frágil, o FMLN conta com uma inserção nos extratos populares, como o setor dos trabalhadores dos mercados e também dos vendedores informais, que aglutinam uma cota de cerca de 60% da força de trabalho salvadorenha. São 500 mil trabalhadores. O partido possui administrações nos 23 mercados populares da capital.

Nos anos de1990, a hegemonia neoliberal e a ressaca do final da guerra transformaram a Frente numa “instituição partidária de natureza pública, fi nanciada e com funções estabelecidas por lei”, como explica o pesquisador Dagoberto Gutiérrez. Com os Acordos de Paz, a derrota eleitoral dos sandinistas na Nicarágua e, sobretudo, a queda do Muro de Berlim, El Salvador passou a viver uma baixa na luta de massas, mas o FMLN sobrevive com milhares de afiliados. Deixou de ser uma frente de cinco partidos para tornar-se um partido massivo, porém monolítico. 

 

Horizonte eleitoral

“A luta passou a ser por cargos. O militante se converteu em um afiliado, em um conselheiro, deputado etc., os dirigentes passaram a fazer parte do Estado burguês, a Frente entrou com toda a força no processo eleitoral”, critica Fidel Nieto, membro da organização política Tendência Revolucionária (TR).

Críticos à esquerda do partido apontam que as eleições se tornam um fi m em si mesmo e o partido não fomentaria a luta do movimento popular. Com a crise que já golpeia o país, a Arena está sem discurso. Porém, de acordo com a TR, o programa do FMLN mantém o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA, apóia o empresariado local e o investidor internacional. O processo buscaria referência no Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro: vitória e moderação do governo Lula.

Nesse cenário, é consenso que a derrota da Arena e a vitória da Frente são importantes, mas a TR aponta a necessidade das massas lutarem pela construção de um poder popular, e da aposta em movimentos sociais de luta contra as mineradoras e as represas, pelos recursos naturais etc.

As diferenças institucionais e políticas dos dois países são grandes: por um lado, o Brasil tem uma instituição e democracia liberal forte. Já El Salvador não possui uma estrutura produtiva e instituições consolidadas. O próximo governo estaria fragilizado com a crise que atinge o capitalismo.

Um detalhe importante: o FMLN conta com uma militância capacitada, com uma expectativa de que, uma vez não cumprida, deve gerar uma insatisfação violenta. “Após as eleições, a relação partido e movimento pode mudar”, aposta Nieto. (PC e VO)

 

O que foi o FMLN?

de San Salvador (El Salvador)

Durante os anos 1980, o FMLN encabeçou o processo mais intenso de enfrentamento da América Latina na época, do ponto de vista militar. A Frente foi resultado da união de cinco partidos políticos, entre eles o Partido Comunista, com presença histórica em El Salvador.

Sua gênese está no assassinato do bispo Oscar Romero, no momento em que os movimentos de massa eram perseguidos. As insurreições populares acumuladas desde 1960 desaguaram, então, em uma tática de acúmulo pela luta armada, por meio do FMLN.

Depois de um assalto à capital do país, em 1989, houve uma constatação: nem o FMLN venceria o exército ofi cial, nem seria derrotada por ele (mesmo com o fi nanciamento estadunidense). Houve o reconhecimento das autoridades de “empate técnico”. Antes, a Frente já havia sido reconhecida pelos governos de México e França como exército beligerante.

Em 1992, são assinados os Acordos de Paz. (PC e VO)

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