Por Venâncio de Oliveira
Parte I
Um jarro abocanha meio litro de água. Uma jovem de seios vermelhos se banhava. Enchia seu corpo deste líquido raro. Na noite passada tinha faltado. Uma buzina de táxi convida um turista. “Tenho uma cota para cumprir. Será que vou conseguir mais uma viagem”. O sol amargava as costas de um americano. Os homens eram formigas entrecortadas no trânsito. A polícia com suas armas e escudos vigia a baderna política. Olhos verdes, rostos brancos, marcas de café, mulheres seminuas enchiam os aeroportos. Um lugar fresco, lá fora pulsava outro mundo. A pele morena, queimada, vermelha denunciava a distancia entre o modelo e o real.
A América Central grita de seus ônibus velhos; ela esbraveja de suas mulheres e jovens que vendem banana, chiclete, água, coca-cola em cada canto, esquina e parada de mercado. A América Central da Costa Rica, de El Salvador, de Panamá, de muitos outros mundos, da mestiçagem profunda, do coração indígena, do plástico, do discurso imposto.
Um ônibus escolar americano atropela uma estudante. Um presente gringo que serve para o transporte coletivo de um Nicaragüense. Um embaixador americano dá uma entrevista. “A política dos EUA há 30 anos é de fortalecimento da democracia e do desenvolvimento econômico”. Os ex-guerrilheiros da Guatemala, El Salvador, Nicarágua não tem a mesma interpretação. Contam a um jovem que a estratégia dos gringos de liberdade era chamada de “arrancar a água do peixe”. “Foram anos difíceis. Sabiam que a população nos ajudava, era nossa força. Os gringos atacavam diretamente a comunidade, queimavam suas casas, matavam sua gente. Tudo isso para impedir que nos ajudasse. Os canalhas diziam que iam arrancar a água do peixe! Nós éramos os peixes e o povo a água!”
Criminosos atemorizam a mulher que trabalha em um restaurante na Guatemala. Ela tem de voltar para casa sozinha à noite. Para o velho de olhos duros foram os americanos que criaram este mundo das gangues. “Ah! Eles deportaram e treinaram em becos de algum distrito de seu país estes jovens. Aqui acabam indo para o crime.”
O aeroporto de Costa Rica está cheio. Um garoto com maquiagem grita com sua mãe nos EUA. “Quero mais dinheiro. Acabou o que tinha me dado”. O homem forte caminha a passos lentos com sua camisa de veterano de guerra e sua mulher loira republicana. Ela votou para Mcain. Estaria com Hillary, feliz que a ex-primeira dama componha o novo governo. “Meu povo é conciliatório, sua democracia está assentada em bases fortes, os Democratas e Republicanos vão manter a linha da política de libertação dos povos do terrorismo”. Um garoto lhes oferece um charuto de seu país. Um sorriso aos estrangeiros. Assim, ensina os manuais.
O ônibus traz os pertences pessoais de seu motorista. “Jesus Cristo está neste veículo”. Ele dirige com velocidade, o transito é uma aventura. Ele atravessa a esquina o mais ágil possível. O sinal vermelho impede a circulação livre que o centro americano inventa. A criança nicaragüense tem dificuldade de atravessar a pista, em seu pueblo às coisas são mais tranqüilas, sem tantos carros como em Manágua.
A menina baila na discoteca de El Salvador. Ela é sensual. Gosta de estar com seu companheiro. O calor toma conta de si, o corpo dela se funde com o do estrangeiro. Ele é bonito, passa a mão em seu cabelo. Ela gosta de seu humor. Tem medo e gozo. Abraça-o, se junta mais a ele. Suas coxas, seios e seu intimo se ligam e buscam o coração do seu parceiro. A salvadorenha é sensual. Ela quer estar com o estrangeiro. Ele a beija. Ela sente seus lábios. Sua boca está adocicada. Prazer e vergonha. “Está bom. Podemos parar. Tem muita gente aqui”. Será difícil estar com ele, mãe solteira, sua família a condena por ter mais homens que a façam outros filhos e custos, o outro se foi e nem conhece sua mãe. Sente nos olhos do estrangeiro a necessidade insaciada. Seu coração aperta.
A campesina conta para o novo amigo que teve três homens, só do último que gostou. O primeiro a convenceu a sair de casa. Seus pais não queriam. Ela foi com ele. Engravidou. Ele a rejeitou. A hondurenha resignada voltou para a casa com seu filho.
A trabalhadora de maquila Salvadorenha sai do seu serviço com o coração apertado. O medo do escuro é torrencial. Contou para os estrangeiros sobre seus dois estupros. Fora difícil. Tinha de fazer. Libertara-se dos fantasmas que a perseguira, Tinha 12 anos. A guerra queimava tudo. Ela era medrosa. Andava na fazenda de sua avó. Um sorriso e uma mão pesada. Era uma jovem de 20 anos. Gostava da escola. Terminaria tarde. Mas, assim o faria. Talvez se tornasse enfermeira. Apareceu novamente aquele sorriso e mão. As pessoas iam dizer que era diferente. Para ela sempre fora o mesmo. Gosta de um dos estrangeiros. Seu sorriso bonito, educado, lhe tratava como igual. Estava feliz por encontrá-lo. Amanha queria ser amada. Seu coração estava pulsando sangue renovado por novas esperanças.
Os carros corriam em meio aos vulcões. A música de um latino que canta com voz chorosa estremecia num celular, uma jovem a escutava num ônibus. Os frangos fritos são entregues em motos ligeiras que se aventuram na direção semi-legal do centro americano. Os vulcões não incitam o medo como era na época de seus ancestrais. Os celulares o desencantaram. Não apagaram seu fogo.
Um pequeno tremor não afeta o vendedor ambulante. O suor escorre no seu rosto batido. O calor hondurenho o massacra. Sobe para o ônibus e grita suas palavras decoradas cotidianas. Ele tem de vender muitas canetas por dia. Tem de persuadir seus compradores de que seu produto é o melhor. O discurso está afinado. Sente que senão o fizesse seria difícil vender.
O ônibus ultrapassa um carro, uma ambulância, um caminhão. Precisa correr. Estelí, Comayagua, Cidade de Guatemala, Santa Ana, San Salvador, Manágua, Santa Tecla, Chalatenango, Tegucigalpa, Leon, São Matheus. Todos os espaços e tempos aceleram o coração do centro americano que o divide com os movimentos das novas mercadorias, do turismo gringo, dos antigos medos e sentimentos dos pueblos. A velha carrega suas coisas, vai visitar seu filho em San Salvador, teme os jovens, o perigo, as gangues, o mundo em erupção, seus antepassados não viviam assim, seus netos, bisnetos e futura geração vai viver desta forma para sempre.
Estrangeiros atravessam a fronteira de Honduras e El Salvador. O velho os observava no ônibus. Gostaria de conhecer seus mundos. Tem curiosidade. Há dois jovens e um casal. Não estão juntos. Inicia uma conversa com os mais novos. São simpáticos. O velho é amável, tem vergonha, é apenas um hondurenho. Seu passado é doloroso. “Será que em outros mundos as pessoas sofrem como agente?”. Seu olho profundo e duro sorri matreiramente. Gosta da conversa. Um Salvadorenho lhes oferece a bicicleta para guiá-los até o outro lado da fronteira, o casal aceita, os jovens não, o velho se insulta com a oferta para ele que trabalhou anos nas fazendas de café, jornada dura, era forte. O garoto leva na parte frontal de sua bicicleta um americano e uma italiana. Eles vão para as praias de El Salvador.
O centro de San Salvador cansa as pessoas, a fumaça, muitas pessoas, o caos, a mulher grita. “A libra de uva por dólar”. Repete muitas vezes estas palavras. Um dito mágico. Um desespero por sobrevivência. Os policiais carregam metralhadoras. Aparecem jovens no jornal matinal. O velho o folheia. Eram garotos de olhos assustados. Foram todos encarcerados. Eram membros de gangues. Um político distribui brinquedos e cestas básicas. Diz em todos os jornais: “Vejam o que eu faça antes de entrar para o governo, imaginem o que farei depois”. Um garoto grita num ônibus. “Irmão! Jesus pode te salvar. Há muitos jovens nas drogas. Eu estou pregando. Quem sabe se depois que sair deste ônibus não possa acontecer algo com você. Irmão! Arrependa-se antes que seja tarde!”.
A pensão é improvisada. Um hondurenho precisa ganhar a vida de alguma forma. Tem vergonha de seu banheiro precário. Tem uma porta sem fechadura. Aparecem dois viajantes. Um jovem vai se banhar. Abre a porta. “Ahhh”. Uma mulher sente vergonha. Está desnuda. Toca seu sexo para não mostrá-lo. Ele está sem o que dizer. Sai. O silencio é o melhor remédio. “Estes centro americanos não gostam de portas!”. Sempre deixam abertas. Seu amigo ri.
Uma criança brinca numa praia salvadorenha. Seus pais estão abraçados. Balançavam na rede. Ela ri. O mundo é seguro para ela. O peixe está sendo frito. Uma senhora gorda doura o pescado. Um suor escorre por seu nariz. Sua filha mais velha leva para a família seu alimento. Seu sorriso é vergonhoso. Os filhos mais novos da gorda, duas crianças, levam os canudos e guardanapos. Serviço completo. O cachorro quer um pedaço do peixe. As filhas da gorda olham para as crianças que brincam. Sorriem. Queriam uma parte da brincadeira.
Uma nicaragüense se apaixona por um Espanhol. Um humanitário que trabalha em uma ONG. Ele é bonito. Ela tem vergonha de suas investidas. Ele a beija. Fala em paixão. Um recado, “Quero voltar a sentir a paixão de seus olhos”. Sua amiga o lê. “Você está dormindo com ele? Que feio”. “Não, não!” Chora. É uma mulher de respeito. Vai tirar satisfação com o Espanhol atrevido. Ele se embravece. “Os garotos de 12 anos escrevem isto para suas amadas de onde eu venho. Escrevi algo para te alegrar. Fiz o melhor para te dar carinho. Não a vejo como uma mulher vulgar. Paixão é respeito. Quando uma pessoa admira a outra, seu coração sorri por dentro, se preocupa com ela, quer vê-la. Isso é paixão.” Ele vai embora. Ela fica confusa, prefere não entender este mundo diferente, tem de estar na defesa. Sabe que os homens sempre deixam as mulheres. Ele se enfurece. Gostava dela, sente-se mal por ter uma resposta oposta do que esperava. Não quer mais vê-la. Um mundo incognoscível para ele.
A América Central pulsa e ferve com seus vulcões, mães solteiras, tortilhas, violência e passado de lutas. Os homens perseguem destinos que não são seus, enquanto não encontram seus verdadeiros caminhos. Seus filhos estão trabalhando para outros mundos, EUA, Espanha, Inglaterra. O Barcelona é o time de Juan. Os furacões ameaçam Honduras, Panamá, Guatemala. A menina tem esperanças nas próximas eleições. O seu partido da bandeira vermelha fala em mudança. Um candidato de esquerda se encontra com os velhos donos do poder. A América sente uma tempestade que chega ao fim do horizonte.
Continua