desde o Vale do Ribeira

•Março 17, 2009 • Deixe um comentário

luta contra a barragem da Votorantim, no Vale do Ribeira

Marcha defende direito de muitos contra direito de um empresário
16/03/2009 17:17

No Vale do Ribeira, 400 pessoas marcharam para reforçar os 20 anos de resistência à construção da usina hidrelétrica de Tijuco Alto

16/03/2009

Pedro Carrano

de Ribeira (SP)

Ribeirinhos, caiçaras, quilombolas e pescadores marchavam ao lado de estudantes, ambientalistas e camponeses ameaçados de perder a terra onde produzem. No Vale do Ribeira, fronteira entre São Paulo e Paraná, cerca de 400 pessoas marchavam para reforçar os 20 anos de resistência à construção da usina hidrelétrica de Tijuco Alto, projetada pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), junto a outras três barragens, ao longo do corpo do rio Ribeira de Iguape.

O Movimento dos Ameaçados por Barragens (Moab) é a sigla que aglutina as lutas dessa região. O ato era mais um momento do Dia Internacional de Luta Contra as Barragens. O trecho entre as cidades de Ribeira (SP) e Adrianópolis (PR) foi atravessado pela marcha, em um trabalho de conscientização da população. Uma faixa do comércio local apoiava Tijuco Alto, mas os manifestantes gritaram alto: “Terra sim, barragens não”. O lema do movimento é o direito à terra pelos seus moradores, algo que está em contradição com o projeto que beneficia a CBA – pertencente ao empresário Antônio Ermírio de Moraes. A finalidade de Tijuco Alto é alimentar uma planta de produção de alumínio, em cidade há 250 quilômetros dali.

mais em: http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/marcha-popular-do-direito-de-todos-contra-o-direito-de-um-empresario/

julia

•Fevereiro 23, 2009 • Deixe um comentário

(pedro carrano)

Agora Julia não tem mais problemas pra viver o tédio do deserto cercado de sal onde está cravada a cidade de Uyuni. Quando alguém sente a sua falta, sabe onde achá-la: a menina fica das seis da tarde até de madrugada na única casa de internet da cidade, na única rua urbanizada de Uyuni, aquela onde estão as casas que vendem pacotes de turismo.
Conversando no msn, sem querer a jovem descobriu que o castelhano a leva mais longe que o quíchua ensinado pelos pais. Que as cordilheiras são uma imagem que não merece o mínimo flash dos olhos de Julia. Às vezes ela fecha mais cedo o comércio onde trabalha sozinha, pra entrar no chat. Não sente falta das moscas se aglomerando sobre as frutas que Julia tem de vender. Não sente falta do tempo e do sol acumulados no mercado. Mas ela também não imagina que agora está perdendo, na única e velha praça de Uyuni, o cheiro da pele dos meninos que ainda se juntam por ali.

(março de 2005. Uyuni. Bolívia)

Chiapas. México. Coletânea de cenas

•Fevereiro 21, 2009 • Deixe um comentário

(pedro carrano)

machete

A rede de Héctor sacoleja apenas com a visão de Ramiro chegando na vizinhança e com a lembrança daquele dia.

Naquele dia Ramiro pediu pra Héctor uma ajuda com o trabalho na plantação. Não tinha dinheiro pra pagá-lo, mas chamaria o amigo para um pozol, a bebida de milho de todas as manhãs e situações.
Os dois levantaram cedo, bem antes que o meio-dia pesasse e desse o trabalho por encerrado. Cortaram caminho pelo milharal, entre as trilhas imperfeitas da Selva Lacandona.
Eles eram só sandália e calção curto. Nunca havia passado nada, mas sem grandes pretensões uma cobra mordeu a canela de Héctor. Desespero. Indecisão. Numa fração de segundos os dois se olharam, embora já soubessem. Ramiro sacou o machete (facão) da cintura. Héctor ainda gritou que não, na verdade mais por desafogo, antes de ver Ramiro dar um golpe seco, e separar a perna envenenada do resto do corpo do amigo.

três silêncios

Eles vivem nas mesmas casas de madeira de ocote e telhado de zinco. A porta das suas casas, assim como aquela do sambista que compôs Chão de Estrelas, tampouco tem um trinco.

Agora eles viajam juntos pendurados numa caminhonete de transporte, a chamada redila. São três, todos eles indígenas falantes de tzeltal, mais de 30 anos e mais de 3 filhos. Isso é o que à primeira vista é possível saber deles, destes três indígenas vizinhos de uma mesma região, porque ninguém diz ou pergunta algo no silêncio sepulcral do trajeto.

Talvez eles até saibam. Mas por enquanto o primeiro não pode contar que é base zapatista e que participou do levante armado de 1994. O segundo não pode dizer que há anos recebeu apoio do governo pra criar um grupo paramilitar e expulsar zapatistas das suas terras. E o outro não pode revelar que é soldado do exército, ainda que o tio tenha morrido combatendo as forças do exército oficial ao lado dos zapatistas – um tio que ele admirava muito.

eles

Chego ao norte desse continente submerso e outra vez me encontro com Eles. Na cidade de San Cristóbal de Las Casas, eles carregam uma caixinha amarrada no peito, como um homem do realejo, só que seu objetivo é vender tesouras produzidas na China, canetas do Vietnã, camisas produzidas nas fábricas maquiladoras estadunidenses instaladas em Honduras.
Eles não sabem. Eles não imaginam de onde vem essa Babel de produtos que preenche a sua caixinha. Não sabem das 18 horas de trabalho nas maquiladoras, dos centavos de dólares por dia no Vietnan. Da política e das transnacionais também não sabem. Eles apenas atravessam esquinas sem roteiro. E, desse modo, eles nos dão a impressão de ter, neste teatro moderno das cidades, o papel de carregar e colocar à venda a nossa própria cegueira.

“Porque el mundo no solo está afuera, sino en el más recondito de nuestro corazón”. (Ernesto Sábato, La Resistencia)

pai

o pai sempre esteve em todos os lugares, na conversa com os amigos, nos sonhos e fora deles, nas madrugadas sem sono. No sol, na nuvem, nos morros.

Ele nasceu com isso: a lembrança do pai que morreu na guerra de 94 do governo versus os povos originários. Conhecido, o pai. Os amigos sabiam e todos sabiam e era quase como se ele fosse o filho do pai que morreu combatendo. O pai o companheiro que não voltou. E assim viveu a mãe, e assim as irmãs e assim viveram eles todos lembrando. Eles lembravam vivendo.

Só que o pai não morreu na guerra, “foi o estado que o botou na cadeia e criou uma história”, diz a folha do jornal. A mãe sempre levou nas costas os filhos e as lenhas. A irmã sempre andou devagar. Faz sol faz nuvem faz vento e faz raio na penugem das montanhas. Um quetzal se atravessa no caminho distraído. A folha do jornal está contando que o pai foi muito torturado, mas está vivo.

(fins de 2005. inverno no hemisfério norte)

migrações – uma página

•Fevereiro 2, 2009 • Deixe um comentário

Pedro Carrano

e como eu palmilhasse uma estrada de Minas, pedregosa
Drummond

andei pra chegar tão longe, e daqui da longe eu olhei pra trás
e foi como ver distante
eu atravessando os meus temporais

Lenine

Ele tinha tomado um ônibus ainda na Califórnia, descendo a rodovia Panamericana sempre rumo ao sul. Entre cochilos, balanços, noites em hotéis vagabundos e serenos, finalmente Ele reconhece a parte dos Andes que é dada ao seu país. Pouco abaixo da linha do Ecuador, fica o lugar que Ele procurava em sonhos estranhos, ou talvez fosse um simples impulso que o trouxesse de volta. Ou nada disso. Chegando perto da província de Cañar, caramba, Ele tinha esquecido que as montanhas são azuis e os rios são verdes e tudo é um tanto inverso e daltônico. O país dos contrários. Ali nem sempre faz sol mas isso não quer dizer que as pessoas sejam tristes. Ele recorda da frase que o cientista Humboldt disse sobre o Ecuador, e que o vô parafraseava:

“os ecuatorianos são raros e únicos,
dormem tranqüilos entre vulcões
dormem pobres entre tanta riqueza
e ficam alegres ouvindo música triste”.

De repente o país começa a tornar-se para Ele um enigma. Em Nova Iorque, onde trabalhou oito anos, a vida era mais marcial, menos densa, uma rua de mão única, sem saídas, como é a vida de um estrangeiro. Agora, existem muito mais coisas a não se compreender nessa terra, como por que dizem que o povo cañari, originário da província, nunca foi dominado pelos incas, se a língua falada por Ele e pelos irmãos é o quíchua do antigo império de Cusco – não é derrotado quem fala a língua do outro?

Ele está dentro do ônibus enquanto pensa e não pensa nisso tudo, equilibrando desejos de regresso e de abandono, na direção de um endereço que nunca precisou de número, entre poucos caminhos de gente, entre curvas sinuosas, e poucas vacas que não formam gado. Numa descida, reconhece o cego Ismael, ainda vivo, andando com seus dois buracos vazios entre a testa e o apito silvando pra que não seja atropelado. Ele chega no vale e vê um sem-número de casas novas, grandes, iguais, quase como nos Estados Unidos, erguidas com os dólares enviados por caras como Ele.

Não sabia qual casa era a sua, e nem achou estranho as construções daquele tamanho feitas pra guardar milho, galinhas e porcos nos quartos. As mulheres entram em alvoroço porque de longe não sabem qual dos maridos está de volta. O vilarejo hoje é das mulheres e todas correm. Ele é qualquer um deles e está adentrando a cerca do vilarejo. Os cães querem mordê-lo. Por um instante vacila e não sabe com qual nome se apresentar, é difícil, teve de inventar muitos no caminho.

Em casa, finalmente vai ver o chapéu de palha (paja-toquilla) pendurado na parede nova, mas a memória já não sabe e é difícil imaginar que Ele vestiria as velhas roupas, que deitaria na rede, que olharia as estrelas (como bom cañari que ama a divindade lunar), e não ficaria inquieto, pensando nas mulheres, pessoas e nos lances de sorte que (quase?) mudaram o seu destino.

maio de 2005, Quito, Ecuador

América Central: Da pele queimada e dos olhos que não se esquecem

•Janeiro 26, 2009 • 3 Comentários

Por Venâncio de Oliveira

Parte I

Um jarro abocanha meio litro de água. Uma jovem de seios vermelhos se banhava. Enchia seu corpo deste líquido raro. Na noite passada tinha faltado. Uma buzina de táxi convida um turista. “Tenho uma cota para cumprir. Será que vou conseguir mais uma viagem”. O sol amargava as costas de um americano. Os homens eram formigas entrecortadas no trânsito. A polícia com suas armas e escudos vigia a baderna política. Olhos verdes, rostos brancos, marcas de café, mulheres seminuas enchiam os aeroportos. Um lugar fresco, lá fora pulsava outro mundo. A pele morena, queimada, vermelha denunciava a distancia entre o modelo e o real.

A América Central grita de seus ônibus velhos; ela esbraveja de suas mulheres e jovens que vendem banana, chiclete, água, coca-cola em cada canto, esquina e parada de mercado. A América Central da Costa Rica, de El Salvador, de Panamá, de muitos outros mundos, da mestiçagem profunda, do coração indígena, do plástico, do discurso imposto.

Um ônibus escolar americano atropela uma estudante. Um presente gringo que serve para o transporte coletivo de um Nicaragüense. Um embaixador americano dá uma entrevista. “A política dos EUA há 30 anos é de fortalecimento da democracia e do desenvolvimento econômico”. Os ex-guerrilheiros da Guatemala, El Salvador, Nicarágua não tem a mesma interpretação. Contam a um jovem que a estratégia dos gringos de liberdade era chamada de “arrancar a água do peixe”. “Foram anos difíceis. Sabiam que a população nos ajudava, era nossa força. Os gringos atacavam diretamente a comunidade, queimavam suas casas, matavam sua gente. Tudo isso para impedir que nos ajudasse. Os canalhas diziam que iam arrancar a água do peixe! Nós éramos os peixes e o povo a água!”

Criminosos atemorizam a mulher que trabalha em um restaurante na Guatemala. Ela tem de voltar para casa sozinha à noite. Para o velho de olhos duros foram os americanos que criaram este mundo das gangues. “Ah! Eles deportaram e treinaram em becos de algum distrito de seu país estes jovens. Aqui acabam indo para o crime.”

O aeroporto de Costa Rica está cheio. Um garoto com maquiagem grita com sua mãe nos EUA. “Quero mais dinheiro. Acabou o que tinha me dado”. O homem forte caminha a passos lentos com sua camisa de veterano de guerra e sua mulher loira republicana. Ela votou para Mcain. Estaria com Hillary, feliz que a ex-primeira dama componha o novo governo. “Meu povo é conciliatório, sua democracia está assentada em bases fortes, os Democratas e Republicanos vão manter a linha da política de libertação dos povos do terrorismo”. Um garoto lhes oferece um charuto de seu país. Um sorriso aos estrangeiros. Assim, ensina os manuais.

O ônibus traz os pertences pessoais de seu motorista. “Jesus Cristo está neste veículo”. Ele dirige com velocidade, o transito é uma aventura. Ele atravessa a esquina o mais ágil possível. O sinal vermelho impede a circulação livre que o centro americano inventa. A criança nicaragüense tem dificuldade de atravessar a pista, em seu pueblo às coisas são mais tranqüilas, sem tantos carros como em Manágua.

A menina baila na discoteca de El Salvador. Ela é sensual. Gosta de estar com seu companheiro. O calor toma conta de si, o corpo dela se funde com o do estrangeiro. Ele é bonito, passa a mão em seu cabelo. Ela gosta de seu humor. Tem medo e gozo. Abraça-o, se junta mais a ele. Suas coxas, seios e seu intimo se ligam e buscam o coração do seu parceiro. A salvadorenha é sensual. Ela quer estar com o estrangeiro. Ele a beija. Ela sente seus lábios. Sua boca está adocicada. Prazer e vergonha. “Está bom. Podemos parar. Tem muita gente aqui”. Será difícil estar com ele, mãe solteira, sua família a condena por ter mais homens que a façam outros filhos e custos, o outro se foi e nem conhece sua mãe. Sente nos olhos do estrangeiro a necessidade insaciada. Seu coração aperta.

A campesina conta para o novo amigo que teve três homens, só do último que gostou. O primeiro a convenceu a sair de casa. Seus pais não queriam. Ela foi com ele. Engravidou. Ele a rejeitou. A hondurenha resignada voltou para a casa com seu filho.

A trabalhadora de maquila Salvadorenha sai do seu serviço com o coração apertado. O medo do escuro é torrencial. Contou para os estrangeiros sobre seus dois estupros. Fora difícil. Tinha de fazer. Libertara-se dos fantasmas que a perseguira, Tinha 12 anos. A guerra queimava tudo. Ela era medrosa. Andava na fazenda de sua avó. Um sorriso e uma mão pesada. Era uma jovem de 20 anos. Gostava da escola. Terminaria tarde. Mas, assim o faria. Talvez se tornasse enfermeira. Apareceu novamente aquele sorriso e mão. As pessoas iam dizer que era diferente. Para ela sempre fora o mesmo. Gosta de um dos estrangeiros. Seu sorriso bonito, educado, lhe tratava como igual. Estava feliz por encontrá-lo. Amanha queria ser amada. Seu coração estava pulsando sangue renovado por novas esperanças.

Os carros corriam em meio aos vulcões. A música de um latino que canta com voz chorosa estremecia num celular, uma jovem a escutava num ônibus. Os frangos fritos são entregues em motos ligeiras que se aventuram na direção semi-legal do centro americano. Os vulcões não incitam o medo como era na época de seus ancestrais. Os celulares o desencantaram. Não apagaram seu fogo.

Um pequeno tremor não afeta o vendedor ambulante. O suor escorre no seu rosto batido. O calor hondurenho o massacra. Sobe para o ônibus e grita suas palavras decoradas cotidianas. Ele tem de vender muitas canetas por dia. Tem de persuadir seus compradores de que seu produto é o melhor. O discurso está afinado. Sente que senão o fizesse seria difícil vender.

O ônibus ultrapassa um carro, uma ambulância, um caminhão. Precisa correr. Estelí, Comayagua, Cidade de Guatemala, Santa Ana, San Salvador, Manágua, Santa Tecla, Chalatenango, Tegucigalpa, Leon, São Matheus. Todos os espaços e tempos aceleram o coração do centro americano que o divide com os movimentos das novas mercadorias, do turismo gringo, dos antigos medos e sentimentos dos pueblos. A velha carrega suas coisas, vai visitar seu filho em San Salvador, teme os jovens, o perigo, as gangues, o mundo em erupção, seus antepassados não viviam assim, seus netos, bisnetos e futura geração vai viver desta forma para sempre.

Estrangeiros atravessam a fronteira de Honduras e El Salvador. O velho os observava no ônibus. Gostaria de conhecer seus mundos. Tem curiosidade. Há dois jovens e um casal. Não estão juntos. Inicia uma conversa com os mais novos. São simpáticos. O velho é amável, tem vergonha, é apenas um hondurenho. Seu passado é doloroso. “Será que em outros mundos as pessoas sofrem como agente?”. Seu olho profundo e duro sorri matreiramente. Gosta da conversa. Um Salvadorenho lhes oferece a bicicleta para guiá-los até o outro lado da fronteira, o casal aceita, os jovens não, o velho se insulta com a oferta para ele que trabalhou anos nas fazendas de café, jornada dura, era forte. O garoto leva na parte frontal de sua bicicleta um americano e uma italiana. Eles vão para as praias de El Salvador.

O centro de San Salvador cansa as pessoas, a fumaça, muitas pessoas, o caos, a mulher grita. “A libra de uva por dólar”. Repete muitas vezes estas palavras. Um dito mágico. Um desespero por sobrevivência. Os policiais carregam metralhadoras. Aparecem jovens no jornal matinal. O velho o folheia. Eram garotos de olhos assustados. Foram todos encarcerados. Eram membros de gangues. Um político distribui brinquedos e cestas básicas. Diz em todos os jornais: “Vejam o que eu faça antes de entrar para o governo, imaginem o que farei depois”. Um garoto grita num ônibus. “Irmão! Jesus pode te salvar. Há muitos jovens nas drogas. Eu estou pregando. Quem sabe se depois que sair deste ônibus não possa acontecer algo com você. Irmão! Arrependa-se antes que seja tarde!”.

A pensão é improvisada. Um hondurenho precisa ganhar a vida de alguma forma. Tem vergonha de seu banheiro precário. Tem uma porta sem fechadura. Aparecem dois viajantes. Um jovem vai se banhar. Abre a porta. “Ahhh”. Uma mulher sente vergonha. Está desnuda. Toca seu sexo para não mostrá-lo. Ele está sem o que dizer. Sai. O silencio é o melhor remédio. “Estes centro americanos não gostam de portas!”. Sempre deixam abertas. Seu amigo ri.

Uma criança brinca numa praia salvadorenha. Seus pais estão abraçados. Balançavam na rede. Ela ri. O mundo é seguro para ela. O peixe está sendo frito. Uma senhora gorda doura o pescado. Um suor escorre por seu nariz. Sua filha mais velha leva para a família seu alimento. Seu sorriso é vergonhoso. Os filhos mais novos da gorda, duas crianças, levam os canudos e guardanapos. Serviço completo. O cachorro quer um pedaço do peixe. As filhas da gorda olham para as crianças que brincam. Sorriem. Queriam uma parte da brincadeira.

Uma nicaragüense se apaixona por um Espanhol. Um humanitário que trabalha em uma ONG. Ele é bonito. Ela tem vergonha de suas investidas. Ele a beija. Fala em paixão. Um recado, “Quero voltar a sentir a paixão de seus olhos”. Sua amiga o lê. “Você está dormindo com ele? Que feio”. “Não, não!” Chora. É uma mulher de respeito. Vai tirar satisfação com o Espanhol atrevido. Ele se embravece. “Os garotos de 12 anos escrevem isto para suas amadas de onde eu venho. Escrevi algo para te alegrar. Fiz o melhor para te dar carinho. Não a vejo como uma mulher vulgar. Paixão é respeito. Quando uma pessoa admira a outra, seu coração sorri por dentro, se preocupa com ela, quer vê-la. Isso é paixão.” Ele vai embora. Ela fica confusa, prefere não entender este mundo diferente, tem de estar na defesa. Sabe que os homens sempre deixam as mulheres. Ele se enfurece. Gostava dela, sente-se mal por ter uma resposta oposta do que esperava. Não quer mais vê-la. Um mundo incognoscível para ele.

A América Central pulsa e ferve com seus vulcões, mães solteiras, tortilhas, violência e passado de lutas. Os homens perseguem destinos que não são seus, enquanto não encontram seus verdadeiros caminhos. Seus filhos estão trabalhando para outros mundos, EUA, Espanha, Inglaterra. O Barcelona é o time de Juan. Os furacões ameaçam Honduras, Panamá, Guatemala. A menina tem esperanças nas próximas eleições. O seu partido da bandeira vermelha fala em mudança. Um candidato de esquerda se encontra com os velhos donos do poder. A América sente uma tempestade que chega ao fim do horizonte.

Continua

Crônica dos arredores de San Salvador: San Marcos

•Janeiro 16, 2009 • Deixe um comentário

E Marieta não se dava conta. De tão acostumada, não punha os olhos em alerta, nem os ombros tensos, nem tinha o silêncio de espanto como aquele nosso. Éramos nós quem apontávamos as contradições: galerias comerciais imensas, contornadas pelo néon das grandes redes de comida rápida. Indígenas baixinhos defendendo farmácias e lojas com fuzis M-12. Senhoras carregando a bolsa com as duas mãos, na frente do corpo. Muitos telhados e paredes de zinco à beira das ruas, das estradas, dos morros.

O túmulo do bispo Oscar Romero fica escondida no subsolo da igreja central, enquanto os fiéis e as mercadorias transitavam livres pelos mercados populares.

Marieta apenas ria. O sorriso quase completo de dentes. Os olhos adolescentes na cara enrugada pelo trabalho e talvez pelo sol do Pacífico. O começo da vida fugindo da guerra, carregada pelas montanhas adentro. A outra parte numa fábrica maquiladora de roupas. E agora a militância na organização de mulheres maquileras. Insistia que nós dois, eu e Venâncio, tínhamos cara de criança e éramos muito branquelos.

- Fui estrupada com seis anos durante a guerra pelos soldados do exército. Quando eu já tinha vinte, me agarraram na saída do colégio. De novo. Daquela vez foram os maras (gangues), Marina dizia, naquele ônibus em alta velocidade. Meus irmãos, os dois morreram na guerrilha.

O ônibus da linha 26 traz a bandeira a vermelha da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional. Outro passava com o nome de Lênin na carenagem. Outro do nazismo. Farabundo Martí, Ernesto Guevara, Oscar Romero em tantas camisetas. Eu e Venâncio mantínhamos aquele nosso silêncio desarmado. E os olhos para fora, fugindo dos olhos de Marieta. Com uma naturalidade dolorosa, eles buscavam se agarrar aos nossos, rindo sempre. Venâncio estava em pior condição, de pé naquele ônibus escolar datado de alguma década perdida. Resultado: as janelas eram muito baixas e Venâncio não tinha muito para onde olhar.

Não sabíamos como dizer a Marieta: mas as coisas, a vida da gente etc, são rios que se chocam por dentro com outras correntes, com os afluentes, por baixo da superfície que aparece. Mas ela insistia em perguntar por que tínhamos deixado o Brasil, por que estávamos no menor país da América. Queria, talvez, uma cronologia e uma seqüência. O que não tínhamos ou então não queríamos dar a ela uma resposta confortável. Um ciclista quase foi atropelado no viaduto pelo nosso ônibus desenfreado.

Éramos rápidos em escapar dessas situações e delimitar as coisas a ferro e fogo. Venâncio apelava para a política. Marieta não gostou quando voltamos a perguntar sobre a militância. O ônibus parava, precisava novamente encher de passageiros. O tempo se estendia naquela ilha de calor, San Salvador era atravessada de cabo a rabo, margeávamos sempre um vulcão adormecido. A região de fábricas maquiladoras, San Marcos, para onde Marieta nos prometeu levar, embora ela quisesse mesmo era sair com a gente.

- Agora estou indo ao psicólogo. Estou melhor. O trabalho com as mulheres também me ajuda. Adivinhem: estou apaixonada por um de vocês dois, adivinhem qual.

San Marcos fica em frente ao ponto final da linha 26, em um mercado com telhados a perder de vista, ao lado de um comitê do partido oficialista da época da ditadura. Ela nem quis saber se estávamos com a direita neoliberal ou com a esquerda moderada nas próximas eleições de março. Venâncio, empolgado com a pele, carne e ossos do novo idioma, tentava explicar a Marieta sobre a tal da palavra saudade.

- Vocês são loucos, querem dar a vida por este país. Mas eu gosto de vocês, ela tratou de nos desconcertar novamente.

Era preciso organizar tudo, colocar as perguntas em ordem, cumprir o questionário coerente com a nossa reportagem. As trabalhadoras deixavam algum dos vários galpões de produção. Conheciam e saudavam Marieta. Quatro da tarde, as poucas que cumpriam a meta diária de 700 peças de roupa podiam deixar aquela fortaleza protegida de guardas. Admiravam o trabalho atual de Marieta.

- Conseguiu sair deste inferno, que bom, hein.

Algumas saíram, outras voltam. Sempre voltam ao ponto de partida. Na avenida, um caminhão carregado de cana-de-açúcar quase me atropela. O campo de futebol ali perto era de terra branca, meninos nos distraíam – entre um silêncio e outro – jogando terrivelmente mal. O final de tarde devia trazer para todas um certo alívio cortado entre o fim do serviço e a consciência da chegada do dia seguinte.

- Temos que dormir por aqui perto, em um quarto alugado. De manhã, um café e tortilhas. Somos todas de povoados, que ficam muito longe.

Somos apresentados a Carmen. Naquele momento ela tentava controlar a mandíbula trêmula. O rosto índio encarregava de afastar qualquer dramatismo. Mas era dor e ódio o que ela tinha. O gerente da sua equipe de trabalho colou uma tartaruga na máquina de costurar de Carmen. Para as mais produtivas era colado um furacão. O pior não era isso: a compensação das metas e o sábado à tarde perdido no trabalho.

Amaya estava grávida de oito meses, tomando uma Coca no mercado. Falou nos Estados Unidos, destino do final de ano. A crise, o desemprego, a deportação diária e os mais de 3 mil quilômetros de distância não eram piores do que aquela coreana de topete, que deixou a fábrica maquiladora a bordo de um Toyota reluzente. A verdade é que todos rosnamos juntos para a proprietária.

- Dizem que as grávidas não são deportadas pela migração gringa. Talvez os caras cobrem uma propina. Meu marido e meus irmãos já estão lá. Em Salvador também já estão demitindo e não há trabalho para os homens.

O segurança da fábrica maquiladora nos estava tomando fotos, apontava o dedo para o resto da sua equipe, fixava a nossa cara. O cotidiano não cobrava nem uma dose de espanto a Marieta.

- Vocês querem ir embora? Está escurecendo e ficando perigoso aqui.

O trajeto de retorno se dissolvia na cidade noturna, pontuada de luz à sombra do vulcão. Os relatos concretos marcavam o compasso dos nossos pensamentos solitários. Como foi a despedida de Marieta não está certo na minha memória. Se não me engano, ela perguntou a Venâncio como foi o nosso final de semana passado, a praia de La Libertad, o azul do Pacífico.
(por Pedro Carrano)

Um Pueblo distante

•Dezembro 29, 2008 • 1 Comentário

Por Venâncio de Oliveira

O vento conduzia rapidamente as mudanças, nuvens se entrecruzavam, diferenças de humor, sentimentos dados às coisas sem humanidade. Fazia frio depois de um dia quente. As montanhas ditavam as regras deste mundo, seu silêncio escondia o segredo dos homens. O pueblo caminhava a passos lentos. O ônibus gritava palavras indecifráveis, caminhos e descaminhos. O tempo era regido pelo vento.

Uma rua com pedrinhas que entravam nos sapatos, andar era difícil para quem vivia no pueblo. As moças cantavam baixo para não serem mal-vistas. Uma praça respirava os espíritos dos cidadãos de Las Piedras.

Os olhos atentos para as montanhas. Nuvens as namoravam. O que fazer e ser? O cotidiano é regido por leis impensáveis para mortais. “O tempo está mudando. Será que vai chover?”. “Sim, as nuvens mais carregadas estão chegando, olhe lá, parecem mulheres brabas.”

As pessoas se preocupavam com seus afazeres num mundo que fazia e desfazia seus sonhos. Os homens eram donos de Las Piedras. Seus avós, bisavós, ancestrais longínquos, desde que as coisas existiam, eles estavam por ali.

“As meninas vão voltar”. “É difícil saber, aqueles que vão nem sempre voltam”. “Não se preocupes! O que é certo de acontecer as coisas vão ditar”. “Gosto de minha tristeza, assim lembro mais tempo delas”. As casas choravam aqueles que deixavam Pedras, aventuravam-se num mundo diferente.

A piñata era a diversão das crianças de Las Piedras. Meninos e meninas com violência contida. Exortação ao caos numa brincadeira é possível. Os paus nas mãos de crianças, a sede pelos doces que estão dentro do brinquedo com cara de bicho. Os golpes e as risadas se misturam num humor diferente. Cada um tem direito de violar o gato cheio de doçuras. O menino mais ansioso arrebenta o objeto torto. O gozo é coletivo, todos desfrutam as balas e os chocolates. Não coisas tão caras, o povo de Las Piedras não tem tanto dinheiro. A felicidade das crianças é seu único valor.

Amanhã choveria. Las Piedras iria viver o medo das intempéries da natureza, seu povo não podia agüentar tantas lamúrias, trabalhar os relegou a pobreza. A noite começava a tomar conta do que restava de sol. A montanha adormecia, dividindo aqueles que estavam nela para alimentar os que dormiam em suas casas a chorar por outros mundos.

O último ônibus já passava. A comunicação com os outros mundos morria naquele dia. As coisas permaneciam como eram, tempo e pessoas, um tentando dominar o outro. A montanha continuava a intrigar os forasteiros, vinham à cidade e não a entendiam, interessavam por aventurar-se em seus desígnios. Eles se perdiam, somente o povo de Las Piedras, filhos dos primeiros que descobriram aquela cidade, conhecia a montanha, um alimento para seus filhos e netos. Assim seria até onde durasse a humanidade.

As letrinhas bonitas estampavam o nome daquela cidade, modernidade que espantara os primeiros que a fizeram e escreveram a vida do Pueblo. Os olhos da velha atentavam-se aquelas palavras, visão focada num outro dever, trabalhar, cortar, acender, retirar, gestos simples que a levariam a mais dias exaustivos naquelas montanhas. Esteve enferma, impedida de se juntar aos seus semelhantes. Alimentar-se era preciso, não tinha mais a mesma força. Sua mãe e seu pai a ensinara: natureza e ela, uma coisa só.

Os deuses pululavam em sua imaginação. Seus pés doíam, suas pernas não eram a mesmas, as letrinhas ficariam para depois, iria deitar, amanhã subiria a montanha. “Minhas filhas poderiam me ajudar?!”. Egoísmo, não podia requerer delas muita coisa. A mãe só serve quando o filho não tem ação própria. Cagar, limpar, dar de comer, o crescimento não dá o direito de sua criadora ser ajudada, “ Ah… de vez em quando elas me ajudam”. Trabalhava sozinha. O povo de Las Piedras não tinha muito para compartir com seus familiares. Seus filhos estavam indo para outros mundos para trazer fartura aos que ficavam.

_ Vó, você vai amanhã para a montanha?

_Sim, você vêm comigo?

_Sim.

_Seu pai?

_ O que têm? Quero te ajudar. Gosto da montanha.

_ Você tem de conversar com ele. Pode se enojar com você.

_ Sim, vó. Eu falo com ele.

Os filhos nunca se lembravam dos pais, assim foi em sua época, será para sempre, sabia que o menino não iria avisá-lo.

Um domingo vivo.

•Dezembro 29, 2008 • Deixe um comentário

Por Venâncio de Oliveira

Um domingo vivo, mulheres com suas roupas de banho, sorrisos exuberantes, crianças e jovens todos indo à praia. Um encontro coletivo nos parece uma excursão. Paraísos turísticos e superficiais do nordeste ou sul do Brasil. Era uma reunião de mulheres lutadoras, rostos batidos pelas longas jornadas de trabalho, assédio moral e sexual, cansadas de serem exploradas, buscam as mãos calejadas das companheiras para se fortalecerem. Uma casa de música caribenha, movimento festivo e sensual, coqueiros, mar do pacífico, um azul claro, forte luz das profundezas das águas, dia feliz para ser gente.

O tempo para se reunir, debater política, ainda folgar e relaxar é pouco, outro dia é o momento de dar a vida ao patrão. As trabalhadoras nas maquiladoras de tecidos são mães solteiras, muitas delas precisam trazer seus filhos à reunião política. “Uma descontração para as crianças, ficam sempre nas mesmas coisas sempre”. São mulheres que trabalham e sofrem, sentem-se felizes por estarem uma com as outras, compartirem da alegria e da tristeza, paisagens bonitas e água cristalina. Política e diversão se unem.

A reunião política é a primeira pauta, mulheres não são apenas “bestas de cargas”, rebeldes sociais, militantes de esquerda, não entendem muito desta coisa de tática e estratégia. Sabem que as pessoas no poder não gostam delas, o patrão tem interesse em explora-lás, se juntam para combater as desgraças da vida.

As cadeiras se enfileiram, as companheiras com mais experiência começam a organizar a reunião. As palavras bonitas dão ânimo para quem não tem muito em que se apegar. Rostos duros, sorriso fácil, conversar com as amigas agora pode, na hora do serviço o patrão reprime. As crianças correm em círculos, entram na piscina, suas vidas intensas felicitam suas mães, estão felizes por poderem dar alimentos a seus “hijos”.

Os grupos de trabalho ajudam a refletir as formas de resistir à realidade dura. Uma totalidade de tantas maledicências, dificuldade de buscar seus meandros, dividir suas causas, necessário ter esquemas, por que eles são expertos. As companheiras puxam gritos de guerra. Sofrem com a exploração do Macho, do Patrão, da Igreja, do Estado. Devem sustentar sua família, enquanto o homem quer ser dono de seu corpo. A liberdade contra toda uma corrente de maldade, necessidade material difícil de se expressar em palavras, os sentimentos falam por si.

Uma rede de dormir, uma criança, uma jovem com olhos envolventes. A mão pequena sente um novo mundo, a moça e sua maternidade profunda. Totalidade de vida, sociedade brutal, trabalhar é preciso. Agora é o momento de relaxar, findou-se as conversações políticas. O palhaço organiza a festa. Mães levam seus filhos para se banhar no oceano pacífico. Bailam com as companheiras, o corpo em contato com música bonita e sensual. As matronas brincam, diversão de crianças, cadeiras vazias serão ocupadas quando terminar a música, quem ficar de pé está fora, os prêmios serão entregues àquelas que trouxerem o recomendado pelo palhaço.

O sol envolve, a diversão também cansa. A festa e a política terminaram. Amanhã tem trabalho. “Devemos guardar a felicidade das brincadeiras com as amigas e os códigos para lutar contra as infelicidades do mundo”.

Miséria nas fábricas maquiladoras, miséria no campo, miséria no mundo do trabalho

•Dezembro 18, 2008 • Deixe um comentário
Pedro Carrano,
Venâncio de Oliveira,
de La Libertad (El Salvador), para o Brasil de Fato  
 
“Somos seres humanos e não bestas de cargas”, exclamou uma das 170 trabalhadoras de diferentesmaquilas de tecidos. Elas se reuniram no litoral de El Salvador, por meio da organização Mélida, para discutir este trabalho marcado pela exploração da força de trabalho feminina. “Alcançamos as metas de produção, mas não ganhamos horas-extras”, reclama Ana Gloria, mulher que precisa costurar 700 peças de roupa por dia. Mãe solteira, deve garantir a comida dos dois filhos. As maquiladoras são implementadas desde a década de 1990, com um discurso de modernização e novos empregos. “Importam o mesmo que exportam, geram demandas sociais e não pagam impostos por isso. Saem do país mais fácil do que vieram. Demandamos um fundo de segurança contra este tipo de desemprego”, explica Marina Ríos, da Mélida.

Desde o começo de 2008, 14 empresas fecharam no país, ao contrário do que apontam os números do Ministério da Economia, que fala em somente quatro. De acordo com o Sindicato General de la Costura, foram 10508 mulheres despedidas neste ano. Nem todas as plantas e zonas francas contam com sindicato de costureiras, devido à coação por que passam as trabalhadoras junto aos chefes da produção. “O trabalho de organização tem de ser clandestino, uma vez nos descobriram organizando um sindicato e a maioria das mulheres foram demitidas”, conta Marina. Dentro da fábrica, as mulheres sofrem pressão por maior produtividade. Fora dela, está a violência, quando o trabalho acaba de noite.

Francisca é uma trabalhadora organizada há seis meses, porém com 16 anos de trabalho nas maquiladoras. Conta que as operárias devem produzir com metas de trabalhos, uma cota diária que revela-se impossível de ser cumprida. Nada de pagamento de horas extras. A meta então deve ser alcançada nos finais de semana ou no dia seguinte, uma hora mais cedo. As mulheres trabalham em diferentes atividades e linhas de produção ao mesmo tempo. Francisca aplica oito diferentes modalidades de costura, em máquinas e fios que, de acordo com ela, estão desgastados. “Não podemos falar durante o serviço”, lamenta a trabalhadora Ana Gloria. As mulheres sofrem com pressão moral. “Se uma operária não cumpre as metas, sofre com um apelido, colam o adesivo de uma tartaruga na sua máquina. Se tiver produtividade ganha um adesivo de furacão”, explica Marina Ríos.  
Francisca, assim como Ana Gloria, Juana e tantas outras mulheres, apontam que não usam equipamento de segurança – acidentes acontecem nas máquinas de costurar. “Uma companheira conduzindo uma máquina sofreu um acidente, a agulha entrou em seu dedo”, expõe Francisca. As mulheres são submetidas à exploração do trabalho e de gênero, sofrem pressão sexual, os supervisores pressionam as mais jovens. “As maquilas de tecidos exploram especialmente as mulheres, pois são trabalhos que elas aprenderam em casa. Articulam-se as opressões, o patriarcalismo e o lucro, querem uma mulher com determinado estereótipo, pagam menos que os homens. Os empresários pressionam para que as mulheres façam exame de gravidez e Aids, isto é proibido por lei, mas continuam tendo esta prática”, comenta Marina Ríos.

De acordo com o Sindicato General de la Costura, o seguro social computa 70 mil trabalhadoras no país. Porém há cerca de 20 mil não registradas. Cerca de 60% das trabalhadoras são mães solteiras, com idade entre 18 e 26 anos. Férias são uma dificuldade para elas, as empresas demitem neste período ou pressionam para seguir trabalhando. Seus baixos salários não permitem que tomem café da manhã. Depois de jornadas de 8 a 12 horas, ficam debilitadas e não tem tratamento médico adequado. As mulheres lutam contra flexibilidade laboral. “Liberdade de jornada, dos salários, da disposição das trabalhadoras, ruptura com o contrato do trabalho são estratégias de exploração. As mulheres não podem atrasar o horário de chegada, não tem hora para sair, são facilmente demitidas, não se paga horas extras e noturnas”, Marina Ríos.

Mulheres e a resistência política
Na época da guerrilha dos anos 1980, as mulheres integravam de 25 a 30 por cento das tropas guerrilheiras, de onde saíram combatentes, como Ana Maria Melida, quadro do Sindicato de Professores que integrou a guerrilha do FMLN, e inspirou a organização de mulheres Mélida. A organização atua em quatro áreas: capacitação feminista e laboral, atenção jurídica, organização de comitês e formulação de leis. “Nos inserimos nas comunidades, formamos associação e comitês com as mulheres, em seus locais de moradia. Nas fábricas temos dificuldades: há repressão, tem de ser um trabalho clandestino. Ajudamos com a organização sindical, diferente do tradicional: uma mulher sindicalista com posto de direção e com conhecimento de seus direitos trabalhistas”, descreve Marina Ríos. Buscam, ainda, organizar marchas, mobilizações de ruas e inserção em greves. 

Em El Salvador, antiga guerrilha pode chegar ao governo

•Dezembro 5, 2008 • 1 Comentário

Frente Farabundo Martí pela Libertação Nacional possui inserção nos setores sociais, mas, segue a lógica eleitoral do PT brasileiro

de San Salvador

(El Salvador)

Anos de guerra civil, encerrada na década de 1990 e marcada no imaginário popular. Logo veio a desertificação neoliberal e agora uma nova janela se abre para os salvadorenhos. O país prepara-se para as eleições legislativas e municipais, em janeiro, e presidenciais, em março.

A polarização se dá entre dois partidos. De um lado, o ofi cialista Arena governa o país desde 1989 e tem o discurso abalado com a crise do neoliberalismo. A frágil burguesia local, importadora e dependente dos EUA, aposta nessa opção e no discurso de medo. Sem projeto político, vem fazendo concessões à esquerda, prometendo o passe-livre para os estudantes (uma luta histórica dos jovens salvadorenhos).

A histórica Frente Farabundo Martí pela Libertação Nacional (FMLN), por sua vez, gera entusiasmo entre militantes e as massas populares. A caravana que deu início à campanha mobilizou mais de 300 mil pessoas. A Frente faz o discurso da mudança, da esperança, da necessidade de moderação para governar em meio à crise – a difícil opção de unir interesses divergentes. Maurício Funes foi o candidato escolhido para a disputa eleitoral de 2009. Apresentador televisivo crítico, ele não era militante do partido até então. Em novembro, o candidato viajou a Washington para tranqüilizar os investidores.

O FMLN é o partido herdeiro da insurreição de 40 mil camponeses em 1932, das lutas do bispo Romero, da guerra civil dos anos de 1980 (veja quadro nesta página). Membros da Frente apontam que houve um movimento de refl uxo das lutas de massas após a assinatura dos Acordos de Paz, em 1992. 

 

Gestão cidadã

Hoje, existe o risco de fraude por parte da Arena, e o FMLN busca uma política que, no geral, seja contrária ao neoliberalismo. “O atual governo colocou 500 milhões de dólares para oxigenar os bancos. Queremos reformas que levem tranqüilidade para as pessoas. Nenhum processo pode-se manter com base na lógica eleitoral: há risco de fraude, pois as cartelas de votação não possuem o selo oficial”, afirma um membro da direção do partido.

Durante a “Tribuna Participativa”, quando os deputados do FMLN passam informes para o povo que se aglutina às sextas-feiras em frente à catedral de San Salvador, militantes do partido defendem a construção de gestões cidadãs. “Mudar a maneira de fazer política para um modo mais participativo, no qual o cidadão seja o ator principal”, defende o deputado da Frente Hugo Martinez. Embora o movimento social no país seja frágil, o FMLN conta com uma inserção nos extratos populares, como o setor dos trabalhadores dos mercados e também dos vendedores informais, que aglutinam uma cota de cerca de 60% da força de trabalho salvadorenha. São 500 mil trabalhadores. O partido possui administrações nos 23 mercados populares da capital.

Nos anos de1990, a hegemonia neoliberal e a ressaca do final da guerra transformaram a Frente numa “instituição partidária de natureza pública, fi nanciada e com funções estabelecidas por lei”, como explica o pesquisador Dagoberto Gutiérrez. Com os Acordos de Paz, a derrota eleitoral dos sandinistas na Nicarágua e, sobretudo, a queda do Muro de Berlim, El Salvador passou a viver uma baixa na luta de massas, mas o FMLN sobrevive com milhares de afiliados. Deixou de ser uma frente de cinco partidos para tornar-se um partido massivo, porém monolítico. 

 

Horizonte eleitoral

“A luta passou a ser por cargos. O militante se converteu em um afiliado, em um conselheiro, deputado etc., os dirigentes passaram a fazer parte do Estado burguês, a Frente entrou com toda a força no processo eleitoral”, critica Fidel Nieto, membro da organização política Tendência Revolucionária (TR).

Críticos à esquerda do partido apontam que as eleições se tornam um fi m em si mesmo e o partido não fomentaria a luta do movimento popular. Com a crise que já golpeia o país, a Arena está sem discurso. Porém, de acordo com a TR, o programa do FMLN mantém o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA, apóia o empresariado local e o investidor internacional. O processo buscaria referência no Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro: vitória e moderação do governo Lula.

Nesse cenário, é consenso que a derrota da Arena e a vitória da Frente são importantes, mas a TR aponta a necessidade das massas lutarem pela construção de um poder popular, e da aposta em movimentos sociais de luta contra as mineradoras e as represas, pelos recursos naturais etc.

As diferenças institucionais e políticas dos dois países são grandes: por um lado, o Brasil tem uma instituição e democracia liberal forte. Já El Salvador não possui uma estrutura produtiva e instituições consolidadas. O próximo governo estaria fragilizado com a crise que atinge o capitalismo.

Um detalhe importante: o FMLN conta com uma militância capacitada, com uma expectativa de que, uma vez não cumprida, deve gerar uma insatisfação violenta. “Após as eleições, a relação partido e movimento pode mudar”, aposta Nieto. (PC e VO)

 

O que foi o FMLN?

de San Salvador (El Salvador)

Durante os anos 1980, o FMLN encabeçou o processo mais intenso de enfrentamento da América Latina na época, do ponto de vista militar. A Frente foi resultado da união de cinco partidos políticos, entre eles o Partido Comunista, com presença histórica em El Salvador.

Sua gênese está no assassinato do bispo Oscar Romero, no momento em que os movimentos de massa eram perseguidos. As insurreições populares acumuladas desde 1960 desaguaram, então, em uma tática de acúmulo pela luta armada, por meio do FMLN.

Depois de um assalto à capital do país, em 1989, houve uma constatação: nem o FMLN venceria o exército ofi cial, nem seria derrotada por ele (mesmo com o fi nanciamento estadunidense). Houve o reconhecimento das autoridades de “empate técnico”. Antes, a Frente já havia sido reconhecida pelos governos de México e França como exército beligerante.

Em 1992, são assinados os Acordos de Paz. (PC e VO)